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Livro conta drama de vítimas de violência sexual

Os inúmeros casos de violência registrados na Delegacia Especializada de Proteção à Criança e ao Adolescente (DPCA), ao longo dos últimos 10 anos, ...

Autoras do livro “Inocência Violada”: Ariane Sfalsani, Marta Costa, Maria Aparecida Sfalsini e Arcangela dos Santos

Última atualização

Os inúmeros casos de violência registrados na Delegacia Especializada de Proteção à Criança e ao Adolescente (DPCA), ao longo dos últimos 10 anos, serviram de base para que quatro mulheres capixabas, sendo três policiais civis e uma advogada, se reunissem a fim de tentar mudar essa realidade.

Após três anos de um intenso trabalho investigativo, que envolveu a análise de casos de abuso e violência sexual contra esse público, o grupo decidiu lançar o livro “Inocência Violada”, que tem como objetivo orientar as famílias sobre as possíveis violências que as crianças e os adolescentes podem estar sofrendo.

Assinado pela ex-titular da DPCA, delegada Maria Aparecida Rasseli Sfalsini, a escrivã Marta Silva Vieira da Costa, a agente de polícia Arcangela Pivetta dos Santos e a advogada Ariane Rasseli Sfalsini, o livro traz uma coletânea de crônicas com histórias sensíveis e busca chamar a atenção da sociedade para um tema grave que é a agressão contra crianças e adolescentes.

Autoras do livro “Inocência Violada”: Ariane  Sfalsani, Marta  Costa, Maria Aparecida  Sfalsini e Arcangela  dos Santos (Foto: Douglas Schneider/AT)

A publicação apresenta histórias de fatos criminosos que as autoras, ambas especialistas neste tipo de ocorrências, tiveram conhecimento enquanto atuavam na DPCA.
orientação

Para proteger os personagens, sem expor a identificação de vítimas, autores, épocas e locais, a narrativa traz realidade e ficção. Além disso, o material também orienta os pais ou responsáveis sobre importantes sinais e riscos que uma vítima pode correr.

“Todos os dias crianças e adolescentes são abusados. A maioria dos casos acontece no meio familiar ou entre conhecidos, passando, muitas vezes, despercebidos. O livro tem como objetivo tocar a sociedade, as famílias, para que elas entendam esse contexto de violência dentro de suas casas, que saibam como ela acontece. Gostaríamos que esse livro pudesse ajudar, principalmente, na redução desses crimes”, explicou a delegada Maria Aparecida Rasseli Sfalsini.

Arcangela Pivetta dos Santos, que trabalhou como investigadora, falou sobre os motivos que as levaram a escrever o livro.

“Nós tínhamos contato direto com as vítimas e suas famílias. Eu, por exemplo, que ficava na recepção, percebi que muitas famílias estavam desinformadas sobre as questões de abusos. O livro vem para isso: para fazer essa orientação”, explicou.


Coragem para proteger a irmã


Cansada de sofrer abusos, cometidos pelo padrasto, uma adolescente, na época com 16 anos, pediu ajuda na Delegacia da Criança e do Adolescente(DPCA). Aos policiais, a jovem contou que já vinha sendo alvo do abusador e que como ele a ameaçava, ela decidiu não contar sobre o crime para a família.

Entretanto, ao acordar numa manhã se deparou com o homem tentando estuprar a sua irmã mais nova, na época com 8 anos. Desesperada, a jovem entrou em luta com o agressor e conseguiu deixar a criança na casa de uma vizinha, indo até a delegacia posteriormente.

“Ela chegou lá de roupa de cama e toda suada de tanto que correu. Mandamos equipe e prendemos o agressor”, conta escrivã Marta Silva Vieira da Costa.


Cliente assustou até advogado


Ao ir acompanhar o cliente, um homem de aproximadamente 30 anos, acusado de abusar de uma criança de 4 anos, na Delegacia da Criança e do Adolescente (DPCA), o próprio advogado de defesa se assustou com o caso e disse ter aprendido a lição com a vítima.

“Ele relatou que atender ao caso serviu de lição para saber quem ele estaria colocando dentro da própria casa, já que o cliente dele era vizinho e amigo da família da vítima e, mesmo assim, cometeu os abusos”, conta a Arcangela Pivetta dos Santos, que trabalhou como investigadora na delegacia.

A menina era do interior do Estado e os abusos foram comprovados por meio de exames.


Mudanças em casa após experiência em delegacia

Engana-se quem pensa que os policiais não aprendem com os casos que eles próprios atendem nas delegacias, principalmente os que envolvem abusos sexuais contra crianças e adolescentes. Muitas ocorrências ensinam lições que vão além do lado profissional.

“Depois de atender a vários casos e perceber que o diálogo em casa é muito importante, eu passei a dar uma atenção maior para meus filhos, que eram crianças na época. Uma coisa que fiz foi tomar banho com eles, para que eles pudessem entender sobre os órgãos sexuais e para me contarem caso alguém tentasse algo com eles”, revela a escrivã Marta Silva Vieira da Costa.

Arcangela Pivetta dos Santos, que trabalhou como investigadora na delegacia, falou sobre um dos casos que a fez conversar mais com os filhos e principalmente sobre o que a motivou a querer escrever o livro.

“Era o de uma menina de 2 anos que foi vítima de abuso várias vezes. Eu já era mãe de uma criança que tinha a mesma idade que ela, então, a partir desse caso, eu tive a certeza de que eu deveria fazer algo por essas crianças”, disse.

A advogada Ariane Rasseli Sfalsini, que cursava o último período de Direito na época que a mãe, a delegada Maria Aparecida Rasseli Sfalsini, era titular da DPCA, escolheu sua área de atuação após experiência na delegacia.

“Me ajudou muito no meu desenvolvimento profissional. Lidar com aqueles casos me transformou como pessoa”, disse.

A delegada Maria Aparecida Rasseli Sfalsini, que afirma ter aprendido muito no período em que esteve a frente da DPCA, frisou a importância das denúncias para os casos de crimes, cometidos contra crianças e adolescentes.

“As vítimas têm dificuldades em expor o que estão passando, principalmente em se tratando de crianças. Então, é importante que os pais, agora professores, com a volta das aulas, observem e denunciem”, disse.

Para os casos de violência contra criança e adolescente entre em contato com o Disque Denúncia (181), Polícia Militar (190), Disque 100 e prefeituras das cidades.

Delegacia de Proteção à Criança e ao Adolescente (Foto: Divulgação / SESP)

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