No primeiro domingo de setembro é celebrada uma data que ainda é pouquíssimo divulgada. E há um movimento crescente para que ela seja reconhecida e faça parte do calendário anual de comemorações. Trata-se do Dia da Madrasta, que está sendo comemorado neste domingo (06).
Sim! Assim como há o Dia das Mães, um grupo de mulheres, que por razões diversas da vida se tornaram madrastas, querem de alguma forma serem reconhecidas, homenageadas.
Uma das que encabeçam esse movimento é a educadora parental, especialista em inteligência emocional e terapeuta Mariana Camardelli. Gaúcha de Porto Alegre, ela tem 34 anos, é mãe da pequena Flora, de 3 anos, e madrasta de dois meninos: Augusto, 16, e Vicente, 12.
Mariana é a idealizadora do “Somos Madrastas”, um projeto que expõe os desafios diários de ser madrasta, abre espaço para mulheres trocarem experiências, lançarem temas para discussões e, também, um canal de acolhimento. O estereótipo da madrasta como “vilã”, “bruxa”, talvez seja o principal desafio a ser vencido por essas mulheres.
No “Somos Madrastas” há debates sobre algumas frases e expressões comumente utilizadas, como o fato do padrasto que cuida dos enteados como se fosse pai ser tratado como um homem incrível. No entanto, por outro lado, a madrasta que cuida dos enteados como se fosse a mãe é vista como a mulher que está querendo ocupar o lugar que não é dela.
A frase “Madrasta não é palavrão” já virou até campanha no projeto e as mensagens da terapeuta na internet têm ajudado milhares de mulheres a encontrarem um espaço e criar um ambiente saudável na família.
Em entrevista ao Tribuna Online, Mariana Camardelli fala sobre a madrastidade, a invisibilidade dessas mulheres e também o preconceito de ser madrasta. Confira abaixo a entrevista e acompanhe o trabalho da terapeuta no Instagram @somos.madrastas e site www.somosmadrastas.com.br.
Tribuna Online – Como surgiu o “Somos Madrastas” e o que ele é e representa?
Mariana Camardelli – O Somos Madrastas é uma rede de acolhimento para mulheres que se tornaram madrastas e se sentem sozinhas e mal representadas pelas narrativas da nossa sociedade.
Qual a sua opinião sobre o motivo das madrastas serem sempre vistas como as vilãs? E por que isso não acontece quando falamos de padrasto?
Antigamente, quando uma mãe falecia, o homem precisava casar-se de novo para ter quem cuidasse dos filhos. Hoje em dia, pessoas casam e descasam por desejo, e não por convenção social.
A formação da sociedade contemporânea mudou, a própria definição de família também. Mas a gente segue com as crenças de outros tempos, que também tem a ver com contos de fadas e histórias medievais. A realidade mudou, precisamos ajustar o discurso e acabar com o preconceito.
Sobre a questão de padrasto, para mim, é reflexo de uma sociedade patriarcal que coloca o homem no lugar de maravilhoso se ele cuida de um filho que não é seu.

Nos Estados Unidos existem diversos livros que falam de forma muito mais adequada sobre essa relação de madrasta e crianças. No Brasil, estão começando a aparecer mais perfis que falam do tema da madrastidade e logo acredito que livros infantis irão trazer o tema de forma mais saudável.
Normalmente, quanto tempo demora para uma madrasta ser realmente aceita pela “nova família”?
Isso varia muito, porque envolve a maneira como o casamento terminou e quais questões o ex-casal enfrenta. Isso pode ser rápido em alguns aspectos, mas pode demorar anos em outros.
Ser madrasta de crianças que têm a mãe ainda viva é diferente de cuidar de crianças com a mãe já falecida? Quais as principais dificuldades?
Pelos relatos que escuto de mulheres, tem diferença sim. De um lado, existe a dor da perda da mãe, mas não existe comparação, por exemplo. Para madrastas que cuidam de crianças que têm a mãe viva, podem acontecer questões relacionadas à diferença de educação nas duas casas, disputas de tempo e até alienação parental.
É possível ter uma foto de família com pai, mãe, madrasta, padrasto? Tem sido mais fácil isso, já que o número de divorciados tem aumentado?
Não só possível como realidade em muitas famílias! Ainda bem!
Há um pensamento de que madrasta deveria também ser homenageada no Dia das Mães. O que você pensa sobre isso?
Madrasta tem dia dela! É o primeiro domingo de setembro. Não precisamos misturar as coisas, né? Sou da linha de cada uma no seu quadrado. (risos).
Em função dessa busca por aceitação, ser madrasta é mais difícil do que ser mãe?
Não acredito que a busca por aceitação é o principal problema. É falta de legitimidade no maternar, é a invisibilidade dentro da própria família, é o preconceito, o estigma. Isso é dolorido demais.
No seu perfil @somos.madrastas, muitas mulheres desabafam e fazem relatos dramáticos de situações que viveram. Teve algum caso que te tocou?
Muitos!!! O mais tocante até hoje foi de uma madrasta que relatou ter descoberto que o enteado adolescente estava se cortando e perguntou se eu achava que ela deveria ir correndo na casa da mãe, apesar da mãe detestá-la. Eu disse sim! Agora! Sai correndo! Ela foi e chegaram a tempo de cuidar do menino e literalmente o salvaram.
O que as pessoas que estão de fora podem fazer para ajudar a família a encontrar um ponto de equilíbrio e harmonia?
Rasgar todos os livros da Disney é uma opção? (risos) Quem está de fora pode ajudar a legitimar e reconhecer as madrastas, sim! É uma causa feminista, acima de tudo. São mulheres que merecem seu lugar e todo respeito. Qualquer pessoa pode parar de usar frases preconceituosas como: “por que você se importa tanto, ele nem é seu filho?!”. Qualquer pessoa pode dar um basta em qualquer tipo de preconceito na sociedade.
E de que forma a família de fato pode ajudar?
Reconhecer. Ouvir. Legitimar. A forma que faz mais sentido na sua casa é a que vale para você. Mas se tem um desejo profundo meu é: consultem as madrastas antes de mudar toda a agenda da casa!!! Se uma coisa foi combinada, cumpra. Se precisa mudar, converse. A gente faz parte, não exclua.
