- Vitória, ES 23°C

Vitória 23°C

Anúncio
Cidades

“Maior desafio da família é o controle emocional dos pais”

Filhos não têm manual de instrução, mas buscar ajuda e orientações é essencial para que os pais desenvolvam bem a sua função. É o que pensa a ...

Escritora Elisama Santos, com um de seus livros. “Crianças aprendem com o exemplo”, diz

Última atualização

Escritora Elisama Santos, com um de seus livros. “Crianças aprendem com o exemplo”, diz (Foto: Divulgação)Filhos não têm manual de instrução, mas buscar ajuda e orientações é essencial para que os pais desenvolvam bem a sua função. É o que pensa a escritora e educadora parental (especialista em educação familiar) Elisama Santos.

Autora de três livros, palestrante e orientadora sobre educação não violenta, Elisama diz que, atualmente, a maior dificuldade dos pais é o autocontrole emocional.

Ela observa que, para ter uma boa relação com os filhos, os pais precisam se autoconhecer e controlar as suas emoções para servirem de exemplo.

Outro desafio é o tempo de convivência, para estabelecer uma boa conexão com os filhos.

A escritora afirma que não é preciso ter horas inteiras de brincadeiras, mas que 15 minutos diários com a criança já ajudam a formar uma ligação saudável.

A Tribuna: Qual é hoje a principal dificuldade na criação dos filhos?
Elisama Santos: O maior desafio das famílias  na criação, acredito que é o controle emocional dos pais. Acho que administrar as emoções é o que é mais difícil para a maioria dos pais, e a gente nem tem consciência disso.

Às vezes, eles até sabem o que têm de fazer, mas ficam tão nervosos  que gritam e batem. Outras vezes, ficam tão de saco cheio que nem querem sentar para conversar ou brincar com os filhos.

Nós conhecemos pouco nossas emoções, vivemos estressados, irritados, impacientes, e acaba que não temos nada para oferecer à criança. É difícil  lidar com o barulho que a criança faz, quando nosso barulho interno é muito alto.

Não é a criança que está demais. Somos nós que estamos de menos. Com menos paciência, menos entrega, menos consciência do que influencia a gente, e isso passa muito para as crianças.

Temos de aprender a reconhecer as emoções. Quando estamos precisando de cuidado, de apoio da família e dos amigos, procuramos formas de nos nutrir emocionalmente, para chegar a nossos filhos bem. 

A gente quer ter tempo para os filhos, ter prazer na companhia deles. Mas, temos de saber que, para alimentar, é preciso estar alimentada  emocionalmente.

Para cuidar com prazer e com leveza, eu preciso trazer isso para a minha vida. 

A Tribuna: As escolas hoje já trabalham a questão do controle emocional. Os pais não sabem lidar com isso ainda?  
Elisama Santos: Não. Nós não aprendemos a lidar com as emoções. Aprendemos que a raiva é errado, que é uma vergonha sentir isso e que somos descontrolados quando sentimos raiva.

Então, quando não aprendo que aquela emoção é normal e que só preciso a lidar com ela, eu brigo com esse sentimento e fico mais nervosa ainda. 

Realmente, acredito que, se cuidamos de nós mesmos, reconhecemos os momentos de raiva e nos afastamos.

Se observarmos os momentos de esgotamento e encontrarmos formas de regular para não descarregar no filho quando chegar em casa, nossas relações mudam grandiosamente. O que falta é esse olhar para a gente mesmo. 

A Tribuna: Os pais podem fazer com que a criança entenda como estão se sentido naquele momento e por que não querem conversar ou brincar?
Elisama Santos: Falar com a criança o que você está sentindo é essencial. Elas aprendem com o exemplo. 

Eu sou um exemplo. Sempre tive fama de brava desde cedo, sou uma pessoa nervosa, mas quando a raiva vem, deixo bem claro para os meus filhos que não tenho condições de conversar. Aviso que vou me afastar, me acalmar e que depois volto e converso. 

O que é muito interessante é que o meu filho, que hoje tem 7 anos, já faz isso também. Então, quanto mais reconheço a minha humanidade e vulnerabilidade, mais a criança aprende a lidar com os sentimentos dela. 

A Tribuna: Um dos desafios muito relatados pelos pais é a falta de tempo. Como lidar com essa dificuldade?
Elisama Santos: Vivemos hoje  em uma sociedade muito acelerada. Então, a sensação de falta de tempo é constante, e em todas as relações, não só com o filho. Já acordamos com a sensação constante de ineficiência. Não estávamos prontos para estar tão conectados. 

Se esperarmos que o tempo sobre, para estar com os filhos, isso nunca vai acontecer. Desacelerar é um esforço, e tem de ser consciente, aquele momento em que tem de parar e pensar: “opa! Estou acelerado demais”. 

Os pais precisam bolar estratégias para conseguir desacelerar, porque hoje, fazer isso é ir contra o fluxo que a vida está te empurrando. É preciso entender que a relação com os filhos se constrói no dia a dia.

Por mais que a gente faça muitas coisas por eles e para eles, é essencial que façamos com eles. Porque o “para eles” e “por eles” não é suficiente.  

O tempo para os filhos não vai sobrar. Ele tem de ser criado por pai e mãe, por uma questão da prioridade. É um grande exercício chegar em casa, desligar ou colocar o celular no silencioso e sentar para brincar com seus filhos durante 15  ou 20 minutos. 

A Tribuna: Mas 15 minutos já bastam?
Elisama Santos: Temos a ilusão de que se pararmos para brincar com os filhos, tem de ser durante duas horas seguidas. Mas tenho uma filosofia de vida de que “é melhor feito do que perfeito”.

Pode ser que o perfeito seja brincar uma hora com seu filho,  mas se os pais podem, por 15 minutos diários, colocando na agenda esse tempo só para ele, de presença verdadeira, garanto que a relação muda. 

No entanto, há pais que dizem que passam a tarde inteira com os filhos, mas se estão mexendo no celular, vendo televisão, pensando nos boletos, estão perdendo tempo, as crianças sabem. Elas sentem o desconforto, que os pais não estão entregues ao momento.

PERFIL

Elisama Santos, escritora, autora de “Tudo eu! Confissões de uma mãe sincera” e “ReOlhar – acolhendo quem somos e os filhos que temos”.
– É palestrante e consultora em educação não violenta.
– É Educadora parental, reconhecida pela Discipline Positive Association (Associação de Disciplina Positiva), com sede nos Estados Unidos

 (Foto: Jornal A Tribuna)

Mais Lidas

Ver tudo ›

    Bem-vindo(a) ao
    Tribuna Online!

    Seu bloqueador de anúncios está ativo.

    A publicidade ajuda a manter nosso jornalismo. Libere os anúncios para apoiar o Tribuna Online.

    Obrigado por apoiar o jornalismo local.