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Dizer “não” já é uma atitude difícil para muita gente. Quando o assunto é maternidade, a negação é ainda mais árdua para as mulheres, que passam por intensas cobranças durante a vida para serem mães.
Mas, apesar dos desafios e julgamentos, o número de mulheres que tem dito “não” à maternidade tem crescido, segundo especialistas. Um levantamento global feito pela farmacêutica Bayer mostrou que 37% das mulheres brasileiras em idade fértil (de 20 a 39 anos) não querem ter filhos.
No Espírito Santo, a estimativa é de que 239.906 capixabas não desejam ser mães, considerando a última projeção populacional do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Ginecologista e presidente da Sociedade de Ginecologia e Obstetrícia do Espírito Santo (Sogoes), Lúcia Helena Mello de Lima confirma a percepção dessa realidade.
“Temos visto nos consultórios que está aumentando o número de casais que não querem ter filhos. A sociedade está mudando, deixando de achar que as mulheres só se realizam se forem mães”.
Mas atravessar os preconceitos não é fácil. A reportagem conversou com algumas dessas mulheres, e os motivos são diversos: muitas vezes, não têm causas específicas. Envolvem escolhas pessoais e o fato de não querer assumir mais uma responsabilidade.
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A influenciadora digital Samanta Teixeira, 32 anos, diz que nunca se imaginou sendo mãe. “Todo mundo falava: ‘com o tempo, você vai ter vontade de ser mãe, ela vai vir’. O tempo foi passando e isso nunca aconteceu”.
Samanta, casada com o empresário Vinícius Santos, de 41, há 10 anos, conta que sempre deixou claro para o marido sobre o seu posicionamento, e isso não é problema entre os dois. “Não planejamos e não temos vontade”.
A gerente de vendas e ultramaratonista Hérica de Oliveira, de 47 anos, tomou a decisão de não ter filhos aos 27 anos. Ela destacou que a maternidade precisa ser uma escolha consciente, porque traz mudanças e demanda dedicação e tempo.
Por ser ultramaratonista, em seu tempo livre após o trabalho, prefere se dedicar ao esporte, e se sente completa e feliz com a escolha.
“Numa sociedade que impõe a maternidade como destino e missão natural para as mulheres, não usar o útero para muita gente soa como uma ofensa pessoal, que deve ser combatida com críticas e até rejeição”, pontuou Hérica.
Maridos são menos cobrados
Para a médica Daniela Pontes, 42, e o marido Marcello Novaes, 42, consultor de ciência de dados, uma das formas de lidar com as críticas à decisão de não ter filhos é encontrar pessoas com a mesma escolha, para ter um apoio. Os dois até fizeram um cruzeiro em 2020, que saiu de Miami às Ilhas Virgens, junto a outros casais com a mesma decisão.
Ela contou que é mais cobrada pela escolha do que o marido. “Nunca tive essa vontade de ser mãe. Por um tempo logo que casei achei que fosse vir, e estava disposta a mudar de ideia, mas não aconteceu”.
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“Não deveria ser obrigatório”
Quem também está tranquila com a escolha de não ter filhos é a neuropsicóloga Renata Chagas Marques, 49 anos. “Estou bem tranquila sem filhos. Acho que não deveria ser algo obrigatório na sociedade”.
Renata contou que entende a maternidade de forma diferente do habitual. “Eu não entendo a maternidade como gerar uma criança. Entendo como acolhimento, sensibilidade, fornecer equilíbrio, e isso não passa só pelo lado biológico e nem pela adoção”.
Assim, acredita que exerce parte dessa função no trabalho, mesmo não sendo mãe.
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Pesquisa
– Estudo feito pela farmacêutica Bayer, com apoio da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo) e do Think about Needs in Contraception (Tanco), revela que 72% das mulheres no mundo não querem ter filhos.
– No Brasil, a porcentagem chega a 37% das mulheres. A pesquisa leva em conta mulheres de 20 a 39 anos.
– No Estado, considerando que há 648.396 mulheres nessa faixa etária, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o percentual representa 239.906 capixabas.
Geração NoMo
– Com o aumento das mudanças na sociedade, o número de mulheres que opta por não ter filhos também cresceu. Neste movimento, chamado “Geração NoMo”, algumas mulheres que se identificam com a causa reivindicam o respeito por escolherem não gerar.
Principais motivações
– Os motivos para não ter filhos são diversos e variam conforme cada mulher. Apenas não ter vontade de ser mãe já é um motivo, segundo as próprias mulheres. Elas ressaltam que esta é uma escolha pessoal e que precisa ser respeitada.
– Mas há outras situações que contribuem para a decisão. Uma delas, que foi relatada, é não querer mudança brusca de rotina, o que acontece na maioria das vezes em que uma mulher se torna mãe.
– Muitas mulheres têm outras prioridades, como viajar e/ou planos no trabalho e no esporte, e acreditam que não conseguiriam ter tempo para se dedicar totalmente à maternidade com esses outros objetivos.
– A responsabilidade de ter um ser dependente também é outro fator que colabora para a decisão.
– Todas elas destacam que a escolha nada tem a ver com não gostar de crianças – muito pelo contrário, a maioria adora crianças. É apenas uma escolha de vida pessoal.
Fonte: Mulheres entrevistadas, especialistas consultados e pesquisa AT.