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“Manter data do Enem vai provocar injustiça”, afirma especialista

Em quase todo o País, os alunos já estão sem aulas presenciais há mais de dois meses. Mesmo assim, a data de realização do Exame Nacional do Ensino ...

Celedônio acredita que uma data confortável seria perto do Natal ou um pouco depois, em janeiro

Última atualização

Em quase todo o País, os alunos já estão sem aulas presenciais há mais de dois meses. Mesmo assim, a data de realização do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) deste ano está mantida para os dias 1º e 8 de novembro – versão impressa.

As inscrições começam na segunda-feira (11) e vão até o próximo dia 22, pelo site https://enem.inep.gov.br/.

Apesar dos apelos dos estudantes e professores, o ministro da Educação, Abraham Weintraub, mantém a decisão de que a data da prova – em versões digital e impressa – não irá mudar (já foi adiado o Enem em formato digital para os dias 22 e 29 de novembro).

Celedônio acredita que  uma data confortável seria perto do Natal ou um pouco depois, em janeiro (Foto: Divulgação)Diretor de Ensino e Inovações Educacionais do Sistema Ari de Sá Plataforma de Educação, Ademar Celedônio acredita que, se o exame não for adiado, vai provocar injustiças e aumentar a desigualdade de oportunidade para os candidatos a uma vaga nas universidades públicas pelo Brasil.

A Tribuna – No caso do impasse em relação à data do Enem 2020, o senhor acha que a prova deveria ou não ser adiada?
 

Ademar Celedônio – Pessoalmente, acho que não haveria nenhum prejuízo se adiasse a prova por uns 40 dias. O MEC (Ministério da Educação) conseguiria dar um conforto para os alunos neste momento de pandemia.

Não acho que 40 dias sejam suficientes para repor o que foi perdido, mas seria uma forma de terminar o ano.

O Enem tem uma arquitetura de logística muito grande, que começa desde a confecção da prova, que é feita em cima de competências e habilidades, avaliação dos itens, impressão de cinco milhões de provas e, depois, a distribuição. É o segundo maior exame do mundo, perdendo só para o vestibular chinês. Então, é muito complexo.

Mas o vestibular chinês foi adiado em 40 dias – seria realizado em junho. Por uma questão de justiça, é preciso um prazo melhor.

Com a manutenção da data, o que pode acontecer é aumentar a desigualdade social, que já é tão grande. Pessoalmente, acredito que manter as datas do Enem vai provocar injustiças.

No momento em que tenho alunos da escola particular estudando, mesmo que remotamente, eles estão sendo mais bem preparados do que os alunos de escola pública.

Nem todos os estados conseguiram fazer a mesma mobilização no setor público.

Como essa desigualdade chegaria na seleção para a universidade?

Após o resultado do Sisu (Sistema de Seleção Unificada), o aluno pode estar em duas categorias: a de cotas e a outra, de ampla concorrência. Então, dentro de seus grupos, vamos ver alguns alunos de escolas públicas, cujos estados e escolas conseguiram se organizar e eles estão estudando agora, mesmo que minimamente. Outros não terão isso.

Teremos na ampla concorrência alunos de escolas particulares das classes A e B com bom acesso à tecnologia. E, talvez de C e D, que, mesmo da rede particular, não tenham muitos bons.

Então, é muito provável que em 2020, mantendo-se a data do Enem, os selecionados para as universidades seriam desses dois grupos que estão mais favorecidos agora com aulas remotas. Poderá aumentar essa desigualdade, que já é latente. Mas, se a data é adiada, as escolas voltam em junho e as redes públicas dão uma aula a mais por dia, conseguimos deixar os alunos mais próximos das condições.

Mas o adiamento não atrapalharia o calendário das universidades?

As instituições públicas, que são o principal objetivo dos candidatos no Enem, hoje estão fechadas, em sua maioria, e não estão com ensino remoto. Portanto, esse semestre de 2020/1 será atrasado. Acredito, que o semestre de 2021/1 deve começar só em abril ou maio. Não acho que tem muito sentido essa pressa para fazer a prova.

Acredito que uma data confortável seria perto do Natal ou um pouco depois, em janeiro. Assim, o resultado sai por volta de março e os alunos ingressam em abril ou maio.

Acha que a complexidade da logística tem a ver com essa decisão em não adiar a data?

Mesmo considerando a logística, segurança e o grande trabalho de mobilização que o Enem traz, ainda é possível postergar as datas. O Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira) manda confeccionar as provas em junho.

Teria de passar muito mais tempo guardando as provas, o que demanda muita segurança. Mas, hoje, em maio, basta a decisão de que não é necessário mandar a prova ser confeccionada em junho.

São 9 mil pessoas trabalhando no Enem, um verdadeiro exército. Mas, como os principais elementos ainda não foram iniciados, acredito que ainda é possível adiar.

Muitos alunos estão apreensivos, querem pressionar o governo a mudar a data. Acha que é a hora?

O aluno tem todo o direito de fazer manifestações. Mas, acho que deveriam pensar de outra maneira. Ele pode se expressar, mas a regra do jogo está estabelecida para novembro. Então, ele tem de cuidar da estrutura dele para essa data. Se possui condições mínimas para acesso à internet, consegue fazer o mínimo de estudos e consegue mitigar um pouco os problemas da falta de professor.

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