Sem perspectivas de trabalho e insatisfeitos com a condução do País, quase metade dos jovens brasileiros quer deixar o Brasil. Eles representam 47% de toda a população entre 15 e 29 anos – cerca de 23 milhões de pessoas.
É uma juventude no auge da idade produtiva, mas decepcionada em níveis recordes. Os dados são do recém-lançado Atlas da Juventude e de novos estudos da FGV Social.
“Os jovens despertaram para a grave situação que atravessa essa geração. Isso preocupa muito, pois a frustração futura também pode ser muito alta”, afirmou o diretor da FGV Social, Marcelo Neri.
Na comparação com outros países da América Latina, o Brasil é o local onde os jovens menos veem chance de progredir trabalhando.
Para a especialista em Pessoas e Carreiras Gisélia Freitas, essa falta de perspectiva está alinhada ao perfil profissional da nova geração.
“Os jovens da geração atual querem respostas e resultados mais rápidos e estão sendo pressionados para terem uma vida independente. Mas o descontentamento tem fundamento, pois o mercado, ainda mais com a pandemia, deu uma virada, com menos oportunidades”, ressaltou.
Por outro lado, o estudo da FGV mostra que os jovens continuam otimistas individualmente, com notas acima da média mundial.
“Esse otimismo é importante para quebrar barreiras. Eles estão descontentes com as lideranças e os modelos de gestão, mas, individualmente, reconhecem seus talentos. Também existem perspectivas positivas no mercado atual, com empresas se adaptando e buscando perfis conectados, inovadores e criativos, que são características dessa geração”, analisou Gisélia Freitas.
Um dos problemas é que essa falta de perspectiva acontece no momento em que o País passa a ter um número recorde de pessoas entre 15 e 29 anos.
É uma proporção inédita de pessoas em idade para trabalhar em relação aos dependentes, como crianças e idosos.
A preocupação é que seja um desperdício histórico em produtividade, conhecimento e mão de obra. Vale lembrar que 27% desses jovens não estudam e nem trabalham.
“A falta de perspectiva tem outros pontos-chaves, como a falta de concurso público e a dificuldade de abrir um negócio no Brasil. Além disso, passamos por um problema econômico sério e a pandemia ajudou a potencializar”, ressaltou o economista Luiz Henrique Sant’Anna.
“Olhamos para o País e não vemos uma luz, enquanto os jovens acabam olhando para fora e vendo oportunidades”, completou.
“Quero morar em outro país”
A universitária Julia Rossi Trabach, de 21 anos, está no quinto período de Publicidade e Propaganda, mas já não vê um futuro promissor morando no Brasil.
“A economia e a política são instáveis. Precisamos escolher entre comer e pagar contas. Tudo é caro e o salário mínimo é baixo”.
Diante disso, ela já se planeja para fazer as malas em breve e tentar melhorar de vida morando fora do País.
“Quero morar em outro país para construir minha família. Penso no Canadá e gostaria de ter uma experiência na minha área. Sei que não será fácil, mas terei mais oportunidades. Espero conseguir ir até os 30 anos”.
Julia faz parte do perfil identificado pela FGV Social: jovens descontentes com o País, mas confiantes em si mesmos. “Sempre fui confiante em tudo o que faço”.
Saiba mais
Dados
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Os dados sobre os jovens brasileiros que querem deixar o Brasil são do recém-lançado Atlas da Juventude e de novos estudos da FGV Social.
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Os estudos incluem pesquisas do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE), como a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PnadC) e a Pnad Covid-19; números da Word Gallup Poll e das Nações Unidas; e levantamentos qualitativos com 2.600 jovens.
Auge de jovens
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O Brasil atingiu o ápice de jovens (entre 15 e 29 anos), idade produtiva recorde em comparação com dependentes (crianças e idosos):
| 2030 | 44 milhões (projeção) |
| 2020 | 50 milhões (atual) |
| 2000 | 48 milhões |
| 1990 | 42 milhões |
| 1980 | 35 milhões |
Jovens querem deixar o País
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O número atual é recorde
| 2019-2021 | 47% |
| 2015-2018 | 43% |
| 2011-2014 | 20% |
| 2005-2010 | 26% |
Geração “nem-nem”
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Percentual dos jovens entre 15 e 29 anos que nem trabalham e nem estudam:
| 2020 | 27,1% |
| 2018 | 24,8% |
| 2015 | 21,90% |
| 2013 | 21,5% |
Dificuldade
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A maioria tem dificuldade de achar trabalho
| 2019-2020 | 70% |
| 2015-2018 | 80% |
| 2011-2014 | 45% |
Acreditam em progredir trabalhando
| Brasil | 70% |
| Uruguai | 84% |
| Argentina | 85% |
| Chile | 87% |
| México | 88% |
| Colômbia | 89% |
| Bolívia | 91% |
Fonte: FGV Social, IBGE, Gallup World Poll e Nações Unidas.
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