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EDUCAÇÃO

“Meu filho tem 9 anos e não está alfabetizado”, diz mãe

Professores apontam prejuízos gerados pela pandemia

Patricia de Souza Ferreira, 36 anos e o filho Kalebe de Souza Jesus, de 9 anos.

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O fato de o filho de 9 anos  ainda não ter aprendido a ler e a escrever preocupa  sua mãe, a recuperadora de crédito Patricia de Souza Ferreira, de 36. Ela teme  que a defasagem  traga prejuízos futuros para o garoto. 

Kalebe de Souza Jesus, que em setembro vai completar 10 anos de idade, está no 4º ano do ensino fundamental de uma escola pública municipal da Serra. “Na última semana, ele falou comigo,  com tristeza, que a professora pediu que  copiasse com letra cursiva, mas  ele só sabe escrever com letra de forma. Ele tem 9 anos e  ainda não está alfabetizado”, conta  a mãe de Kalebe. 

 Mas, o problema do filho de  Patricia não é isolado: no último ano, 40,8% das crianças de 6 e 7 anos do País não aprenderam a ler e a escrever, o equivalente a 2,4 milhões de estudantes, de acordo com  levantamento feito pela organização não governamental Todos pela Educação.

No Brasil, geralmente, as crianças aprendem a ler e a escrever entre 6 e 8 anos de idade, até o momento em que  chegam ao 3º ano do ensino fundamental.  

Para Patricia,  a dificuldade do filho foi acentuada devido à pandemia, com o ensino remoto. Ela relatou que, por mais que tentasse ajudá-lo,  não conseguia ensinar da mesma forma que um professor.    

Ao revelar  que o sonho de Kalebe é ser policial, a mãe admite    temer que a dificuldade na aprendizagem  diminua a autoestima dele  e o faça  desistir dos sonhos. “Será que quando ele tiver 18 anos  vai estar realmente preparado? Será que vai conseguir recuperar esses anos perdidos?”, questiona Patricia. 

“Ele é uma criança negra, filho de pais separados. Minha condição é limitada, mas eu o incentivo muito e digo  que ele pode ser o que   quiser ser”, relata.

De acordo com a doutora em Educação Edna Tavares, situações como a de Kalebe necessitam de intervenções rápidas e eficazes do poder público ou da família. “É inimaginável na sociedade atual que uma criança com essa idade ainda não saiba ler  e escrever . É preocupante, pois, se a situação continua assim, é provável que essa criança seja colocada à margem da sociedade e sofra, pois tudo o que se faz hoje, tem necessidade de leitura e escrita”, alerta.

“Os impactos sociais e emocionais podem trazer danos irreversíveis na vida adulta”, completa  a especialista.

Professores apontam prejuízos

As perdas trazidas pela pandemia  afetaram  alunos de escola pública e  particular, apesar de os impactos terem sido diferentes. 

As principais preocupações dos professores de ambas as redes foram sobre as disciplinas de Português e Matemática, consideradas bases para as demais matérias. 

Na rede pública, os professores relataram a dificuldade dos alunos com a escrita, devido  às atividades terem sido  focadas nas questões objetivas (com alternativas de respostas), e não nas discursivas. 

“Com certeza, o aluno da escola pública, no geral, perdeu no fator da escrita. Mas, dentro da própria rede pública também tem muita desigualdade”, cita o professor de Língua Portuguesa da rede estadual Ricardo Costa Salvalaio.

 Outro desafio foi com relação à Matemática, em que algumas crianças demoraram mais para adquirir habilidades em operações, como a divisão, e no entendimento de um problema, segundo a diretora da Escola Municipal  Deocleciano Francisco da Vitória, em Cariacica, Ângela Maria de Oliveira.

De acordo com a professora e diretora administrativa e financeira do Sindicato dos Trabalhadores em Educação Pública do Espírito Santo (Sindiupes), Noêmia Simonassi, o ensino remoto trouxe impactos para todas as disciplinas.

“Por mais que os professores fizessem um esforço  grande para passar as disciplinas para os alunos, eles, em casa, não tinham acompanhamento. Estudar sozinho é muito complicado. Foi um prejuízo enorme”, afirma Noêmia.

Com relação à  rede privada, o vice-presidente do Sindicato das Empresas Particulares de Ensino do Estado do Espírito Santo (Sinepe-ES), Eduardo Gomes, pontua que as dificuldades dos alunos  foram semelhantes, como em leitura, escrita e Matemática.

Outro problema foi a ausência de muitos familiares no apoio aos alunos, conforme a percepção do professor de  Língua Portuguesa da rede,  Renan Andrade. “O excesso de uso de tecnologias pelos alunos fora do ambiente escolar foi outro problema. Temos hoje alunos pouco críticos”, observa.

Prefeituras e Sedu criam projetos e aulas de reforço

Na tentativa de diminuir as defasagens e desigualdades na educação, as prefeituras da Grande Vitória e a Secretaria de Estado da Educação (Sedu) têm realizado projetos e aulas de reforço.

Em Vitória, a prefeitura criou o   “Educar para Vitória: Fortalecimento das Aprendizagens”, com foco na alfabetização de alunos do 1º ao 5º ano e nas disciplinas de Língua Portuguesa e Matemática, para turmas do 6º ao 9º ano.

 













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“Todos os estudantes serão atendidos. Haverá um dia na semana dedicado ao reforço dos conteúdos para todas as turmas, no horário do turno em que eles estão matriculados”, disse a secretária municipal de Educação,  Juliana Rohsner.

Já aqueles alunos que necessitarem de mais atenção serão atendidos no contraturno escolar.

Na Serra, a prefeitura tem  priorizado ações  pedagógicas com foco na redução das perdas educacionais da pandemia. Entre eles, está o  “Potencializando Aprendizagens”, com ações de auxílio a estudantes do 3º ao 9º ano do ensino fundamental e alunos da Educação de Jovens e Adultos (EJA), que tem previsão de iniciar em março.

Em   Cariacica, a prefeitura  informou que, no período sem aulas presenciais, as atividades foram transmitidas pelo Centro de Mídias da Educação  (Cemec), com aulas na  TV aberta.

Para este ano,  destacou que, no contraturno dos alunos,  serão  oferecidas  aulas de reforço pela TV – também produzidas   no Cemec – todos os dias da semana.

A Prefeitura de  Vila Velha  lançou em 2021 o projeto Tutoria Pedagógica, com acompanhamentos pedagógicos em Língua Portuguesa e Matemática. Para este ano, a secretaria lançou o projeto Alfabetiza Vila Velha,  para intensificar o trabalho pedagógico de alfabetização.

Já na rede pública estadual, a Sedu informou que tem realizado uma série de investimentos na Educação ao longo da pandemia. Entre eles, está a entrega de 60 mil notebooks para   estudantes.

Outro investimento em tecnologia é a “Sala de Inovação e Experimentação”, uma ação da Sedu em parceria com o Google. “Para isso, as salas serão equipadas com kits de arduino (plataforma eletrônica para construção de projetos), impressora 3D, equipamentos de áudio e vídeo, além de internet sem fio (wi-fi)”, informou, em nota.

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