Não existe uma definição única para o abuso ou para o assédio sofridos, em sua maioria, por mulheres. Eles podem ocorrer em festas, na rua, em um relacionamento ou até dentro da casa da vítima. Além disso, se apresentam em formas diferentes: sexual, psicológico, físico ou até financeiro.
Somado à cultura machista que culpabiliza a mulher, isso resulta na fórmula perfeita para os abusadores. Muitas nem sempre sabem que sofreram um abuso ou que foram assediadas. Já as que sabem, em sua maioria, têm medo de falar sobre o assunto.
Para mudar esse cenário e dar voz a essas vítimas, pessoas resolveram relatar no Twitter os abusos às quais foram submetidas. Mulheres de várias idades e até alguns homens estão utilizando a #Exposed para falar sobre casos recentes, estupros durante a infância, assédio em festas e relacionamentos abusivos.
O movimento é nacional e ganhou força no Espírito Santo esta semana com a criação de perfis que reúnem os relatos de pessoas do Estado. Um desses perfis é o @ExposeddoES1. No Twitter, as vítimas detalham os abusos e até divulgam os nomes dos abusadores.
Um dos casos que chamou a atenção é o da estudante I.B., de 18 anos, que preferiu não se identificar e escreveu que sofreu um estupro. Mais de 150 pessoas curtiram um tweet em que ela mostra a confissão do agressor, durante uma conversa em outra rede social.
Quando ainda era menor de idade, em junho do ano passado, a jovem revela que resolveu sair com uma amiga, que tinha um relacionamento com o melhor amigo do rapaz que teria cometido o estupro. Em seu depoimento, I.B. destaca que em nenhum momento demonstrou interesse por ele.
“Quando fomos embora, minha amiga pediu para que eu fosse com ela para casa do melhor amigo do menino, onde ele também estava dormindo. Até então eu não tinha visto problema e aceitei”, contou.
Na madrugada do mesmo dia, I.B. foi abusada sexualmente pelo menos três vezes. Na primeira, o agressor teria tentado uma relação com a estudante, o que foi negado. Na segunda, ele tentou mais uma vez e ela recusou novamente. Os dois acabaram dormindo, mas I.B. conta que acordou com a mão do rapaz em suas partes íntimas.
“Eu não sei o que ocorreu durante a noite porque dormi. Eu estava dormindo e, quando acordei de manhã, me deparei com isso. Não me mexi, e ele não percebeu que eu havia visto. Quando me mexi para ‘acordar’, ele rapidamente tirou a mão num susto, vendo que acordei”, lembrou.
Em entrevista à reportagem do Tribuna Online, a jovem contou que ficou sem saber o que fazer na hora e que ainda é difícil descrever a sensação.
“Eu fiquei com medo de tudo que poderia ter acontecido enquanto eu dormia. Na mesma hora eu saí do quarto e fui para o quarto em que minha amiga estava com o acompanhante dela, e contei para eles. Eu não sei descrever o que eu senti, mas acho que violada é a melhor palavra para definir. Eu me senti violada”.
Com receio de ser desacreditada, I.B. não falou para quase ninguém sobre o caso e também não procurou a delegacia para registrar uma ocorrência. “Na época, até me aconselharam a denunciar, mas eu não tinha provas. Agora que tenho e resolvi fazer esse relato no Twitter com intuito de proteger outras mulheres e também dar voz a elas”.
“Amizade”
Em outro depoimento através da hashtag, um rapaz conta sobre os abusos que sofreu em uma relação de amizade. “Eu também fui vítima de um relacionamento abusivo com uma pessoa que foi meu amigo durante 8 meses. Posso não ser uma mulher, mas a sensação de ser abusado e ter o corpo violado é uma das piores que passei na minha vida”, começa o relato no Twitter.
O jovem explica que quando o conheceu, o “amigo” era uma pessoa agradável e parecia até ser bem sensível. Mas não demorou muito para que ele demonstrasse quem era de verdade. O rapaz foi abusado na noite em que foi convidado para dormir na casa do agressor, que tentou pegar em suas partes íntimas por diversas vezes.
“Até que um dia eu não aguentei mais, porque toda vez ele tentava se aproveitar de mim, sendo que eu sempre deixei claro que eu não gostava disso. Não demorou muito pra logo depois eu descobrir que ele tinha feito isso com mais uma pessoa também”, diz o relato.
Ajuda
— Exposed do ES (@ExposeddoES1)
Além de divulgar as histórias, alguns perfis e projetos nas redes sociais estão sendo criados para oferecer ajuda e mostrar quais são as redes de apoio no Estado. A Colab Mulher, por exemplo, fez a primeira publicação no Instagram há três dias e já reúne mais de 600 seguidores.
Em seu perfil na rede social, o grupo afirma que o projeto é “uma rede colaborativa feminina que tem o intuito de combater qualquer tipo de violência contra a mulher, focando em abordagens no território capixaba”.
Quem entra na página tem acesso a um formulário que pode ser preenchido pelas vítimas para relatar os abusos. “É um ambiente seguro para falar sobre a violência e formas de mudar essa realidade”, diz a introdução.
Já o perfil @ExposeddoES1 utiliza sua página para dar mais visibilidade às denúncias. “Página para informar a todos e todas os exposeds desses homens abusivos do ES e mostrar quem é quem de verdade. Não se iludam, o inimigo sempre está mais perto”, diz a descrição da conta.
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