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ENTREVISTA

“O amor na adoção sempre vai vencer todo o medo”, afirma escritora

Em seu livro, Lisandra Barbiero fala da “criminalização” da genética das crianças e dos adolescentes que esperam a adoção

Lisandra Barbiero reforça que o bullying adotivo causa dor e é severo, pois ridiculariza a própria existência

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“Não nascemos filhos, nos tornamos” é o livro mais recente da escritora Lisandra Barbiero que será lançado mês que vem. 

Além de abordar o ponto de vista da autora, que se tornou filha pela adoção aos 7 meses de vida,  a obra defende que toda criança, consanguínea ou não, percorre o mesmo processo para se tornar filho, que passa pela convivência diária com a família e  decisão dos pais de amar, acolher e cuidar dessa criança, já que, para ela, o amor na adoção sempre vai vencer  todo o   medo. 

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 Em entrevista para a reportagem de A Tribuna, Lisandra chamou a atenção para o bullying adotivo, tanto físico, quando o filho é comparado com características dos pais,  quanto mental. 

“É severo porque ridiculariza a própria existência. São perguntas como: ‘Você conhece a sua mãe verdadeira?’ ou ‘Você conhece os seus irmãos?’. São tentativas de não validar o cidadão, como se,  para   existir, a família tivesse de ser biológica”, destaca a autora.

Hoje, o Brasil soma 33.325 pretendentes para adoção e 4.318 crianças disponíveis para serem adotadas, segundo dados do Sistema Nacional de Adoção. Há quase oito famílias interessadas para cada criança: a procura é  maior que a demanda. 

Mesmo assim, a fila de famílias que esperam pelo filho é longa, quase do mesmo tamanho da demanda. Isso acontece porque 26% dos candidatos à adoção desejam crianças brancas, 58% querem menores de 4 anos de idade, 61% não aceitam adotar irmãos e 57% buscam crianças sem nenhuma doença, conforme o Conselho Nacional de Justiça (CNJ).

 A Tribuna – O conceito de adoção no Brasil é equivocado?

Lisandra Barbiero –  Muitas pessoas têm o conceito de que a adoção é uma caridade. Ainda hoje, aos 37 anos, quando digo que sou filha adotiva, dizem que a minha mãe deve ser uma pessoa  boa. 

 Quando falo que não nascemos filhos adotivos, nascemos igualmente filhos, é porque nascemos com a genética de nossos genitores, mas nos tornamos filhos com a convivência.

Quando você me pergunta o conceito da adoção, ele vem do latim: pega o filho e acolhe como parte de si e nele acolhe a toda família.

Então, podemos dizer que há uma visão errada, por boa parte das pessoas no Brasil, sobre o que significa adotar?

Muitos buscam na adoção um conceito que não condiz com a realidade. O racismo no Brasil é tão forte que ele também age dentro da adoção. 

Mas, segundo dados do CNJ, 70% das crianças e adolescentes   para adoção são pardas e negras.

Mais de 90% dos pretendentes à adoção dizem ser indiferentes à raça. Porém, desde 2019, apenas 5% das crianças adotadas são negras. O racismo é tão enraizado que impede que a criança conviva em comunidade e em  família.

Como é a situação no Espírito Santo?

No Estado, temos 892 crianças em situação de acolhimento, mas apenas 107 para adoção, segundo o CNJ. As demais ainda não foram destituídas do poder familiar.

O que é o bullying adotivo?

Sabemos que existe o bullying em razão da adoção. Ele causa dor. É severo, pois ridiculariza a própria existência. Eu conceituo bullying adotivo quando perguntam: “Você conhece sua mãe verdadeira? Você conhece seus irmãos?”  São tentativas de não validar o cidadão, como se a família, para existir,  tivesse de ser biológica. 

Tentam “criminalizar” a origem genética da pessoa. Muitos dizem: “Tem de tomar cuidado, pois não se sabe a origem genética”, como se fosse um cidadão de segunda classe, mas dentro da família. 

Também existe a pressão para que os filhos sejam parecidos esteticamente com os pais.

Quando a adoção ocorre em famílias homoafetivas, o preconceito é maior?

Acredito que o Brasil tem avançado muito. Mas acho que tem um preconceito maior sim e  isso deve ser combatido e repudiado.

O que é a adoção?

Quando falamos de adoção, é falar de amor, mas requer de nós um aprofundamento. O amor na adoção sempre vai vencer  todo o   medo. Respeitar a decisão de quem decidiu adotar. Respeito ao adotado, que não está mais na família de origem. Respeito a toda e qualquer forma de constituição familiar.

Com que idade  foi adotada?

Eu fui adotada aos 7 meses. Minha mãe tem dois filhos biológicos. Quando você é criança, o adulto subestima muito a capacidade de compreensão da criança. Mas a criança entende, mas, muitas vezes, não sabe perguntar.

Os pais têm de compreender que o direito à verdade pertence à criança. O diálogo dá condições para  a criança crescer com orgulho de ser quem é.

Como foi sua descoberta, em relação à adoção?

Eu tinha 7 anos e passei por porta-retratos, em casa, e me vi  diferente das fotos. Vi duas fotos da minha mãe grávida, bati na porta do quarto, ela deixou que eu entrasse. 

Sou parda e ela branca. Coloquei meu braço ao lado do braço dela e perguntei: “Por que eu sou assim?”. Ela  se emocionou, pegou minha mão e levou até seu coração. Em seguida, disse que eu tinha sido gerada no coração dela.

Como foi sua reação?

Eu fiquei muito feliz. No dia seguinte, fui para a escola e perguntei um por um aos meus colegas se eles tinham nascido da barriga ou do coração da mãe deles. Todos responderam que era da barriga.

Um dia depois, certamente após conversarem com os pais, todos estavam me olhando estranho e escreveram: “Você foi adotada”.

Como se sentiu diante da reação dos seus colegas?

Fiquei com medo de contar para a minha mãe, pois ela me contou de uma forma tão bonita e amorosa que sou filha dela, que não  queria ouvir da minha mãe outra história, porque aquela que ela me contou foi muito sensível.


Perfil de Lisandra Barbiero

Formada em Comunicação Social pela Universidade de Vila Velha, é servidora pública federal e escritora.

Especialista em Neurociências do Comportamento e pós-graduada em Educação Infantil.  

Membro do Grupo de Trabalho de Afinidade e Raça do Senado Federal.

Autora do livro que será lançado em maio: “Não Nascemos Filhos, Nos Tornamos!”.

No livro, ela apresenta um novo conceito que envolve diferentes tipos de violência, o bullying adotivo.

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