O grande número de pessoas vacinadas trouxe a sensação de controle da pandemia e, com ela, chegaram as confraternizações, comemorações de final de ano, amigos-ocultos e vários tipos de festas desta época.
Porém, segundo observa o psiquiatra Daniel Barros, escritor e professor da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), esta época do ano amplifica as emoções por causa dos significados atribuídos a todos esses hábitos no mês de dezembro.
Somado à pressão pela felicidade que a sociedade impõe no dia a dia, o resultado pode trazer sentimentos negativos.
No entanto, sentimentos negativos não são inúteis e devem ser acolhidos, pois felicidade e tristeza não se excluem, principalmente no momento em que se lamenta as perdas da pandemia, mas se tem a esperança de um 2022 melhor.
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A Tribuna – Não estar feliz nessa época do ano é normal ou é sinal de preocupação?
Daniel Barros – Mais do que ficar triste ou alegre, esse é um período mais emotivo. As emoções são amplificadas por causa do significado que atribuímos a essa data, pelas mensagens que recebemos, pelos rituais que fazemos.
Então, há uma idealização de que temos de estar felizes nesses momentos. Se não está, há algo de errado. Por outro lado, ficamos preocupados com pessoas que vão ficar tristes. Mas isso não é novidade. São emoções que estão presentes no nosso dia a dia e, nesse período, se tornam mais evidentes, intensas.
Muitas pessoas sentem essa obrigação de estar feliz nessa época do ano. Por que isso acontece?
A nossa sociedade vive, há algumas décadas, uma sensação de que temos de estar felizes, não só nas festas. Temos uma visão de que o estado natural do ser humano é a felicidade e que, se não está feliz agora, então está com problemas. O que fica potencializado nesse período de festas de final de ano. A gente acaba sendo mais pressionado para ficar bem, feliz, celebrar, como se fôssemos obrigados o tempo todo a ser feliz.
O que é bem ruim. Na verdade ninguém é obrigado a ser feliz o tempo todo e, se acredita nesta mensagem de obrigação, é aí que ficamos frustrados. Então, essa obrigação de estar sempre feliz causa essa tristeza de fim do ano para algumas pessoas.
Um dos piores efeitos desta obrigação é a falsa ideia que a felicidade é um estado exclusivo, ou é tudo ou nada. Se há alguma tristeza nesse período, acha que não se pode estar feliz e desmorona toda a imagem do Natal perfeito, do fim de ano de celebração.
A felicidade e a tristeza não se excluem. Nossos sentimentos são muito mais complexos do que esse tudo ou nada de alegria e felicidade.
Depois de tantos problemas durante a pandemia, mesmo com os planejamentos para as festas, é possível que haja ainda mais dualidade de sentimentos nessa época do ano, então?
Sim. O ser humano é esse mix de emoções. Podemos estar felizes e esperançosos por um 2022 com as pessoas vacinadas, com a quantidade de casos caindo, com a pandemia se aproximando de uma solução. Mas, ao mesmo tempo, nos entristecendo pelo que a gente perdeu, pelas pessoas que se foram. Podemos conviver com as duas coisas.
É ruim, desagradável ter emoções negativas, mas não podemos tapar os ouvidos e os olhos para elas. Temos de reconhecer que elas existem e receber os sinais que elas podem nos dar. Só é possível ficar bem, à medida que se reconhece e acolhe essas emoções negativas.
Quando a tristeza não é normal?
Se tornam problema quando começa a prejudicar. Então, é normal ficar triste, mas, se essa tristeza começa a atrapalhar na vida, é sinal de alerta. Sempre digo que, na dúvida, é melhor procurar um profissional de saúde, mesmo que não seja nada.
A felicidade pode ser demais, em excesso?
A obrigação que temos de ser felizes pode se tornar um fardo e fazer com que algumas pessoas se sintam proibidas de ficar triste, de ter um momento ruim. Acha que ter emoções negativas são inaceitáveis.
Quando nos recusamos a contemplar nossas emoções, isso pode ser realmente perigoso, no sentido de trazer um desgaste emocional. Sentimentos positivos não são exclusivos, obrigatórios e nem constantes e podem conviver com o sentimento negativo.
Depois de uma pandemia, ainda há pessoas com medo de planejar, de recomeçar. Como superar isso?
O medo é protetivo, para que se cuide e não se exponha a riscos desnecessários. O problema é quando o medo começa a paralisar. Também precisamos entender que, com a pandemia, aprendemos que não há nada garantido, podemos planejar e ter certeza de que vai dar tudo certo.
O que não significa que a gente não deva se planejar, ou que não deva ter desejos ou planos, esperança. Agora vamos fazer isso, mas com um tom mais realista, eu acredito.
Quem é
Daniel Martins de Barros
- Psiquiatra, professor colaborador do Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP).
- Doutor em Ciências com especialização em Psiquiatria, Psiquiatria Forense e Filosofia.
- Autor de livros como Viagem por dentro do cérebro, indicado ao prêmio Jabuti de 2014; O caso da menina sonhadora (ambos pela Panda Books), além de Pílulas de bem-estar e O Lado Bom do Lado Ruim (Editora Sextante).