Um drama que se repete: pacientes esperam um ano por consultas e cirurgias pelo Sistema Único de Saúde (SUS) e ainda têm que lidar com a frustração ao saber que o atendimento foi adiado.
Quem viveu essa experiência nesta quinta-feira, 19, foi a autônoma Érica Silva, de 30 anos, que levava o seu filho Flávio Silva Fardin, de 14 anos, para uma consulta no Hospital Universitário Cassiano Antonio Moraes (Hucam), em Vitória.
“Após um ano de espera, finalmente achei que ele seria atendido, mas quando chegamos para a consulta, praticamente demos de cara com a porta. Disseram que a médica oftalmologista tinha sido demitida e não tinham colocado outro especialista no lugar”.
Érica conta que há dois anos o filho foi diagnosticado com ceratocone, uma doença degenerativa da córnea. “Ele só tem cerca de 30% de visão e a doença pode se agravar e ele pode ficar sem enxergar. É um descaso ter de esperar um ano para fazer uma avaliação médica para conseguir um tratamento. Ele precisa de uma solução para já”.
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A autônoma disse que a informação era que a consulta seria remarcada. “Teríamos que esperar quase dois meses, mas não aceitei. Ameacei chamar a imprensa e depois de um tempo remarcaram para a próxima terça-feira. Só que havia outros pacientes que foram embora tristes e terão de esperar esse tempo para serem consultados”.
Quem também é obrigada a lidar com espera de mais de um ano é a cabeleireira Keyla Vasconcelos, 43, que aguarda a cirurgia do seu filho Tiago Vasconcelos de Oliveira, 13.
O adolescente possui um abscesso de septo nasal e necessita de uma cirurgia de correção. O procedimento, segundo a mãe, chegou a ser marcado para o dia 11 de novembro de 2020, mas por falta de material, foi cancelado e até agora não foi remarcado.
A cirurgia seria realizada no Hospital Infantil Nossa Senhora da Glória (Hinsg), anexo ao Hospital da Polícia Militar. “A gente liga e nada. A sensação é de impotência. Só nos resta esperar. O que mais me deixa triste é saber que ele foi chamado para cirurgia e, um dia antes, desmarcaram”.
“É uma corrida contra o tempo”, diz mãe de adolescente que espera consulta
A Tribuna – Como descobriu que o seu filho tem uma doença degenerativa na córnea?
Érica Silva – Foi há cerca de dois anos. Descobrimos durante um exame de vista. Ele era tímido e não falava que estava com dificuldade de enxergar. Foi um susto.
Primeiro, fui em uma unidade de saúde, que é a porta de entrada. Ele foi encaminhado para um especialista. Ficamos aguardando essa consulta no Hucam por cerca de um ano. Olha que era uma consulta de urgência.
Enquanto isso, de seis em seis meses, a gente paga para ele fazer exames que custam cerca de R$ 350, exames que não são oferecidos pelo SUS. Fora isso, tem os colírios que custam aproximadamente R$ 200 por mês, além dos óculos que o governo não dá.
Como ele lida com essa situação?
Ele é ansioso, fica apreensivo e na expectativa de conseguir fazer logo o transplante de córnea para voltar a enxergar.
Achei que hoje (quinta-feira, 19), depois de esperar um ano por uma consulta com oftalmologista, que as coisas iriam avançar. Só que não foi isso que aconteceu. Não é uma doença qualquer, não é uma gripe, é uma doença degenerativa que pode levar o meu filho à cegueira. Ele só tem cerca de 30% de visão. Na escola, ele fotografa o quadro para poder ver as atividades.
Como se sente?
É muito triste. É muito descaso. É uma corrida contra o tempo para o meu filho não perder totalmente a visão. Vou lutar com toda a minha força para ajudá-lo. Só consegui antecipar a consulta para terça-feira porque não abaixei a cabeça. Saúde é um direito de todos.
CASOS
Neuropediatra
Há cerca de um ano, a doméstica Jéssica Cristina Nascimento, 30, aguarda uma consulta com um neuropediatra para o filho de 7 anos.
Ela contou que o filho chegou a ser atendido com o especialista e precisava fazer o acompanhamento, mas não conseguiu.
“Estou tentando há quase um ano. Agora, preciso também tentar para uma outra filha e não consigo. Realmente é difícil demais depender da rede pública para consulta especializada”.
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Dermatologista
A dona de casa Taynara Rocha Coswosk, 19, aguarda há 1 ano e dois meses por uma consulta com uma dermatologista para a filha Aurora, de 1 ano e 8 meses.
Segundo a mãe, desde os seis meses de vida a filha apresenta um problema de pele, que a levou para várias consultas com pediatra em unidades de saúde e pronto atendimento. “Eles não têm muito o que fazer. O encaminhamento para o dermatologista foi feito, mas nunca consegui”, lamentou.
O OUTRO LADO
Apuração
Sobre a consulta do adolescente Flávio Silva Fardin que foi adiada, o Hucam-Ufes informou, por meio de nota, que preza pela transparência na relação com seus pacientes, inclusive em relação à expectativa de espera pelos atendimentos, que varia a depender da especialidade e do procedimento.
“Diante disso, buscará mais informações sobre o caso relatado pela reportagem para maior esclarecimento. O compromisso com a qualidade dos serviços do hospital é garantido por resultados como o índice de satisfação de 97% dos usuários dos ambulatórios do Hucam, medido no último mês de dezembro e relatado ao gestor estadual do SUS”.
Já a Secretaria da Saúde (Sesa) diz que trabalha para garantir a assistência à saúde de forma integral e qualificada. Neste ano, já foram realizadas pelo SUS mais de 340 mil consultas ambulatoriais e cerca de 33 mil cirurgias eletivas, nos três primeiros meses do ano.
Devido ao enfrentamento da pandemia, em alguns momentos houve a necessidade da suspensão de cirurgias eletivas, mas a partir de abril os procedimentos foram retomados em sua totalidade garantindo o acesso da população ao serviço com a oferta de 100 mil cirurgias eletivas até o final do ano. Além disso, um mutirão está sendo preparado e será anunciado em breve.
Em relação à cirurgia do paciente Tiago Vasconcelos de Oliveira, a Sesa disse que está apurando junto ao hospital.