A modernidade da educação é um assunto que tem sido muito discutido entre os especialistas da área. A aprovação da nova base curricular vai trazer mudanças significativas para as escolas de todo o País. Mas, na opinião dos pais, qual é a escola ideal para seus filhos entre as opções de metodologia que existem?
Um levantamento feito pelo Centro de Pesquisas Rachid Mohamd Chibib, da Faculdade Pio XII, em parceria com o jornal A Tribuna, mostrou que os pais acham que a escola tradicional, com disciplina, é a ideal para a formação dos seus filhos.
O estudo mostrou que 63,06% dos pais entrevistados na Grande Vitória querem uma escola mais rígida ou tradicional para os seus filhos. Além disso, 63,71% dos pais são a favor de punições por causa de mau comportamento na escola.
De acordo com o coordenador da pesquisa, o professor Robson Souza, muitos pais acreditam que a escola tradicional é a que tem melhores resultados e disciplina. É o caso da professora Mira Ameixieira, 43 anos, com o filho Davi Ameixieira, de 8 anos. “As pessoas estão perdendo seus valores. Somos pais muito rígidos, principalmente para com a escola. E acredito que a escola tem que acompanhar essa disciplina”.
COERÊNCIA
De acordo com o especialista em Avaliação de Sistemas Educacionais, Edebrande Cavalieri , apesar de parecer na contramão do movimento de mudanças na educação, a preferência dos pais é coerente. Ela explicou que os pais entendem como tradicional as escolas mais antigas no mercado. “Os pais estão em busca de mais disciplina. Vemos uma grande procura por escolas militares, por exemplo, que apresentam bons resultados e demonstram disciplina. No entanto, essa é uma falsa expectativa, há um desejo de voltar ao passado, à estabilidade”.
Preparação para o Enem desde cedo
Há pais que defendem a preparação para o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) desde o primeiro ano do ensino fundamental, quando a criança está entre os seis e sete anos de idade.
Segundo o levantamento feito pela faculdade Pio XII em parceria com A Tribuna, 67,9% dos pais entrevistados querem treinamento para o Enem desde o ensino fundamental. “Desde cedo os pais já mostram uma preocupação com a preparação do filho para a competição do mercado de trabalho. Acredito que seja um pouco da ansiedade dos pais em relação a isso”, destacou o coordenador da pesquisa, o professor Robson Souza.
Ele acrescenta ainda outro dado que mostra a preocupação com o mercado de trabalho. Quando perguntados qual deveria ser a prioridade da escola na formação dos alunos, a maior parte dos pais respondeu que deve ser uma orientação mais competitiva visando ao mercado de trabalho. “Essa é uma tradição no País de focar na graduação, para um melhor formação pensando no mercado de trabalho. Mas, essa preocupação tem que ser equilibrada para não sair do controle”, disse.
De acordo com o especialista em Avaliação de Sistemas Educacionais, Edebrande Cavalieri, com a preocupação nos resultados do Enem e vestibulares, as escolas acabam perdendo uma dos seus papéis fundamentais que é a formação humana. “Primeiro o Enem não foi criado para ser um processo seletivo. Com o tempo, sua função foi desvirtuada. Quando a escola se volta apenas para a formação para o trabalho, há um grande prejuízo. Além disso, é preciso lembrar que o mercado é dinâmico, há sempre áreas diferentes em destaque”, disse o especialista.
A psicóloga Lívia Marques acredita que a palavra chave é equilíbrio, porque é nessa idade que as crianças começam a criar hábitos de estudo. “Essa pressão não é aconselhável. Mas estudar precisa ser hábito e brincar também. Desenvolver competências emocionais e sociais e também conteudista é importante. Equilíbrio é a palavra de ordem”.
Ensino adequado à realidade da criança
A terapeuta ocupacional Alexandra Rangel de Brito, 35, acredita que uma escola ideal para a sua filha Luiza Brito Galvão, 4, é aquela que tem equilíbrio, que tem um olhar cuidadoso, que visa adequar o ensino à realidade da criança.
Ela disse que Luiza começou a pré-alfabetização este ano e acredita que a preparação para provas como Enem e vestibulares tem que estar presente em toda formação. “Sou a favor das escolas começaram a preparação para o Enem já no ensino fundamental. Aliás, essa preparação tem que ser em toda a formação, principalmente no fundamental e médio. Quero uma escola que estimule o potencial da minha filha, mas de forma saudável”, disse Alexandra.
Formação de cidadãos
Na família da empresária Amaline Gusman, 46, e o médico Pablo Gusman, 46, a prioridade na formação das filhas Camille Gusman, 18, Céline Gusman, 16, e Cecília Gusman, 13, sempre foi a criação de um verdadeiro cidadão. “O papel da escola é, juntamente com a família, criar cidadãos. Mas o mercado competitivo também exige a formação acadêmica focada no objetivo de passar no vestibular. Isso não pode ser desvalorizado”, destacou a mãe.
Escolha criteriosa da escola
A pequena Lara Cremasco Correa, 6, está entrando no ensino fundamental e os pais dela, os empresários Diego Guimarães, 34, e Larissa Medina, 33, escolheram a dedo a escola onde ela vai estudar. Eles acreditam que a preparação para o Enem deve começar já. “O aluno precisa se preparar desde cedo para o Enem e a graduação escolhida. Quanto mais cedo ele estiver com o conteúdo em dia, menos será cobrado quando chegar o período das provas”, ressaltou a mãe.
Estímulo ao senso crítico
Pais de alunos matriculados em escolas públicas querem que as unidades de ensino estimulem o senso crítico de seus filhos. Isso é o que mostrou a pesquisa da faculdade Pio XII. De acordo com o estudo 35,48% dos pais acham que as escolas falham ao não desenvolver essa habilidade. E para isso, prefeituras da Grande Vitória e governo do Estado estão desenvolvendo projetos que constroem valores, ajudando na disciplina, rigidez e senso crítico.
Os grêmios estudantis são exemplo desses projetos, em que os jovens criam ações, cobram providências da secretaria de educação e ainda atuam em equipe.
Na Serra, a Secretaria de Educação está ampliando o Programa Educação em Valores Humanos, que desenvolve projetos sobre amor, respeito ao próximo, disciplina, honestidade, entre outros.
Em Vila Velha, há estímulo a projetos com foco nas relações interpessoais, não apenas entre alunos, mas entre todos os profissionais da educação e a família.
Em Cariacica, o foco das escolas está na relação com o aluno e com a família. Já em Vitória, de acordo com a secretária Adriana Sperandio, um dos focos principais é o desenvolvimento do senso crítico dos alunos. “Temos projetos que trabalham os mais variados temas e permite esse desenvolvimento, além dos grêmios e conselhos de classe, que eles também fazem parte”, disse.
De acordo com o secretário de Estado da Educação, Haroldo Rocha, o protagonismo do jovem e o desenvolvimento do senso crítico deles são princípios da Escola Viva. “Todas as escolas precisam estar conectadas com a realidade, porque hoje o mundo muda rápido. É essa proximidade com a realidade que vai ajudar o aluno a se tornar mais crítico e a criar valores”, destacou.
Rigor com liberdade para criar
Ter regras, cobrar disciplina e ser rigorosa não tornam as escolas um local sem liberdade. É o que garantem os colégios particulares. “Liberal e rigoroso são conceitos com alta margem para interpretação. Se entendermos ‘rigor’ como regulação consequente e respeitosa de normas de convívio, a Monteiro se encaixa. Contudo, a liberdade que defendemos em nosso projeto pedagógico é a de que os alunos possam ter maior grau de interação com o corpo docente e com os demais colaboradores da escola, bem como atuarem, em conjunto, numa composição curricular que seja moderna”, é o que defende o diretor da escola Monteiro, Eduardo Costa.
Segundo a diretora pedagógica do Colégio Salesiano Jardim Camburi, Rita Moulin, a regra faz parte de uma organização para a vida, mais ela não impede a liberdade de se expressar, questionar e interagir dentro da escola.
“Quando o aluno não entende o porquê, não internaliza o princípio e age reativamente. Mas quando ele o compreende, entende que cada ação tem sua consequência”.
A diretora do Centro Educacional São Geraldo, Bernadete Gobbi Lellis, esclarece que normas e regras fazem parte da sociedade e também tem que haver nas escolas. “É preciso ter uma parceria com a família para que as regras fiquem claras sempre para o aluno. A escola tem que ser parceira da família.”
Sintonia entre aluno e escola
Apesar de ser uma instituição antiga, a escola é viva e dinâmica, se molda e se transforma a cada mudança da sociedade. É o que garante o doutor em ciência da educação e professor Max Haetinger. E por causa desse dinamismo, o especialista afirma que os moldes que construíram o sucesso dos pais não será o mesmo para os filhos.
Haetinger alerta ainda que hoje as famílias vivem a febre do ranking – as escolas que têm bons resultados, primeiros lugares, seriam as melhores -, no entanto, estar no topo da lista não significa, necessariamente, uma boa formação.
A TRIBUNA – Como é a escola ideal?
HAETINGER – Não existe escola ideal. Uma escola vai ser ideal para uma família e não vai ser para outra. Hoje existem instituições com os mais diferentes segmentos, e a família tem que escolher de acordo com suas vivências uma metodologia que vai ser compatível. A escola ideal é aquela que os pais e o aluno se sentem bem. Mesmo nas escolas públicas em que muitas vezes parece não haver muitas opções de escola, os pais podem optar por uma ou outra que tenha mais a ver com a família, com o objetivo para o filho.
> E a escola integral? Seria um modelo melhor?
A escola integral não tem a ver com o método e sim com extensão de horário. Assim como as outras, cada escola integral vai ter sua metodologia diferente, mas não há uma ideal, melhor do que a outra. Claro que a escola integral tem mais tempo para o aprofundamento na formação dos alunos. Em tempo desconhecimento, só quatro horas na escola é pouco para aprender. O modelo integral é uma realidade no mundo todo, mais ainda é uma dificuldade no Brasil, mas terá de ser uma realidade aqui.
> Por que acha que os pais escolhem a escola tradicional?
Um primeiro aspecto é que a escola tradicional tem uma fama de ser disciplinadora, com regras, que colocam todo mundo no seu devido lugar. No entanto, os pais querem que a escola faça o que eles não estão conseguindo fazer em casa, que é colocar as regras. Um segundo aspecto é que o pai tem referência da escola daquilo que ele viveu, ele quer para o filho aquilo que ele teve. No entanto, vivíamos em um mundo diferente do que é hoje.
Os pais têm que entender que o que fez o seu sucesso não será o sucesso do seu filho, se a criança tiver a mesma coisa que o pai teve, ela será uma perdedora. Essa opção dos pais não me surpreende. Claro que uma escola boa também passa pela disciplina e pela organização, mas não se pode confundir com um aluno atrás do outro em fileiras. A escola tem de dar espaço para o aluno se expressar, questionar, ser autônomo. Disciplina, números não significam, necessariamente, uma boa preparação. Vivemos hoje a doença do ranking. Só as escolas que têm bons resultados, primeiros lugares, são as melhores. Não é só porque a escola está em primeiro lugar que ela será ideal para o seu filho. A escolha de uma escola tem que ser bem-feita, trabalhada e de acordo com cada tipo de família.
Dicas para escolher o colégio ideal
Métodos tradicionais, liberais, modernos. Perto ou longe de casa, com amigos ou longe deles. As opções na hora de escolher uma nova escola são inúmeras, como saber qual é a ideal? Escolher a escola ideal para matricular o filho exige paciência e um olhar atento, segundo especialistas.
De acordo com a diretora pedagógica da Upuerê, Zil Alves, a escola tem que estar em consonância, em primeiro lugar, com o dia a dia e os valores da família. “A escolha da escola certa para o seu filho depende de uma série de fatores, que devem ser combinados. A opção vai depender essencialmente dos valores da família e das características individuais de cada filho”, destacou.
Pedir referência da nova escola e conversar com outros pais também são dicas da pedagoga. “A melhor fonte para dar essas informações são pais que já tiveram filhos na escola”.
De acordo com a pedagoga Sônia Regina Amorim é importante avaliar a qualidade de ensino, o quadro de professores e coordenadores, profissionais que vão lidar diretamente com a criança. “É importante uma escola que englobe o aluno, tenha o aluno 100% envolvido nas atividades e desperte o interesse e a vontade dele pelo estudo. Escolha um colégio que motive o aluno”, disse.
Já a psicóloga Lívia Marques ressalta que é importante que o aluno conheça a escola, se sinta bem onde ele vai estar durante o ano letivo. “É importante levar o filho para conhecer a escola”.






