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“Pais têm de ensinar filhos a controlar medo e raiva”

Já que a atual geração é a mais ansiosa da história, segundo afirmação da psicóloga e escritora Camila Cury, é preciso haver uma dedicação ainda ...

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Já que a atual geração é a mais ansiosa da história, segundo afirmação da psicóloga e escritora Camila Cury, é preciso haver uma dedicação ainda maior aos cuidados da mente – e isso desde a infância.

“Dar limite é fundamental, mas não adianta dar  ordem que você não vai conseguir cumprir;  serão palavras ao vento” (Foto: Divulgação)
A especialista garante que sentimentos como medo, decepção e raiva devem ser controlados e transformados em atitudes positivas, com a ajuda da inteligência emocional e apoio dos pais.
Segundo ela, os pais exercem o papel de ensinar os filhos a identificarem o que eles estão sentindo e como vão lidar com isso ao longo da vida.

“O adulto é um espelho para a criança. Quanto mais saudáveis emocionalmente o pai e a mãe forem, melhor para o desenvolvimento do filho”, disse.

Camila Cury
Autora do livro “A beleza está nos olhos de quem vê” e coautora de outros títulos, a psicóloga e escritora Camila Cury é presidente da Escola de Inteligência, um programa educacional que tem sido adotado cada vez mais por escolas do Estado.

O projeto foi idealizado e fundamentado na teoria “Inteligência Multifocal” do seu pai, o médico psiquiatra, escritor e pesquisador Augusto Cury.

O objetivo é formar jovens pensantes e emocionalmente saudáveis.

Confira a entrevista na íntegra:

A Tribuna: O que é inteligência emocional?
Camila Cury: É a capacidade do indivíduo aprender a lidar com as suas emoções e com os sentimentos dos outros. A pessoa que tem inteligência emocional sabe se comunicar de maneira afetiva e se colocar no lugar do próximo.

A Tribuna: Como isso interfere na vida de uma criança?
Camila Cury: Em tudo! Se um pai deseja que seu filho seja bem-sucedido no século XXI, é imprescindível que ele trabalhe as habilidades de inteligência emocional. Afinal, a criança que tem repertório para lidar com a frustração e com o “não”, que começa dentro de casa, se estende na escola e segue pelo resto da vida, terá mais chance de se tornar um adulto com sucesso na profissão e nos relacionamentos.

A Tribuna: Com quantos anos os pais podem iniciar esse método?
Camila Cury: Quanto mais cedo essas competências forem desenvolvidas, mais visíveis serão os resultados. Nós trabalhamos na escola a partir dos 2 anos de idade, só que a família tem ferramentas para trabalhar desde a vida uterina. Quando a mãe conversa com o feto e coloca uma música tranquila, por exemplo, ela já está criando um ambiente saudável.

A Tribuna: De que forma?
Camila Cury: Primeiro, os pais têm de ensinar aos filhos a não terem medo dos sentimentos. Expressões como “homem não chora”, “você não pode ter medo disso” ou “não chore por essa bobagem”, não devem ser ditas.

Não dá para ignorar o que a criança sente. Sentir medo é normal e preserva a vida. Já a raiva pode se transformar em algo positivo. Ou seja, o problema não está tanto no sentimento, mas em como a gente controla esse sentimento.

Os pais têm de ensinar os filhos a transformar o caos (medo, decepção e raiva) em oportunidades, por meio do diálogo.

A Tribuna: Qual o modo de corrigir e elogiar o filho?
Camila Cury: A criança registra todas as suas experiências ao longo da vida, mas tudo o que tem mais emoção, tem maior registro. Seja uma primeira viagem ou uma grande perda.

Sabendo disso, quando uma criança acertar ou fizer algo adequado, os pais podem comemorar: “Parabéns! Olha que bacana”, e bater palmas. Isso faz com que a criança tenha um registro privilegiado daquela atitude boa.

Já a estratégia para intervir no momento em que a criança fizer pirraça no supermercado é dizer: “Não pode, a mamãe (ou o papai) está muito triste”.

A Tribuna: Como essa estratégia funciona?
Camila Cury: Associar aquilo que não pode com um sentimento e teatralizar a emoção faz com que a criança se coloque no lugar dos pais, e aquele comportamento é registrado de maneira privilegiada como alegria ou tristeza. A partir daí, a criança vai começar a agir e reagir de acordo com as suas expectativas de orientação.

A Tribuna: Dá para ajudar nos momentos de frustração?
Camila Cury: Quando o filho cai, por exemplo, ele fica frustrado e não quer voltar a brincar. Além de abraçar e acolher, para que a criança se sinta segura, também vale contar quando você (pai ou mãe) caiu na festinha de aniversário. Contar a sua história e citar as vezes em que você superou uma dificuldade vai dar base para que ele também possa rever as suas emoções.

A Tribuna: Ter limite é necessário?
Camila Cury: Dar limite é fundamental, mas não adianta dar uma ordem que você não vai cumprir. “Ah, você vai ficar um ano sem assistir televisão”. Vai conseguir bancar isso? Caso contrário, melhor falar que não vai assistir só hoje ou esta semana, e conseguir realmente acompanhar, do que ser um pai que joga palavras ao vento.

O diálogo deve vir junto: “Você pode não entender agora, mas eu te amo e, por isso, estou te dando limite”.

A Tribuna: No caminho, os pais podem se frustrar com a reação do filho?
Camila Cury: Sim, mas os pais devem entender que se o filho bateu a porta do quarto dizendo que ele não te ama mais, isso não é verdade.

Os pais devem diminuir a expectativa de que “o meu filho tem que me amar o tempo inteiro”. Você vai formar um filho que te ama se você formar um bom ser humano. Dando limites, você faz isso.

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