
Os organizadores destacam os efeitos negativos à saúde física e psíquica das crianças por conta do afastamento das escolas, como por exemplo, quadros de ansiedade, irritabilidade e depressão.
Uma das organizadoras da manifestação, a neuropsicopedagoga Cláudia Rodrigues, 35, é mãe de Isaac, 11 anos, e Israel, de 10, estudantes na Escola Professor Thelmo Torres, em Vila Velha.
Os irmãos são autistas e tiveram o ano escolar prejudicado com as aulas remotas, segundo a mãe.
“O vírus é incontrolável, mas o retorno pode e deve ser controlado através de protocolos. O ensino a distância não teve sua aderência e presteza. As crianças com deficiência e em situação de vulnerabilidade estão regredindo”, disse.
Para as famílias que aderiram ao movimento, há situações complexas, mas o retorno precisa ser facultativo, respeitando os protocolos de segurança, com a adaptação estrutural, pedagógica e curricular.
O pai dos gêmeos Enzo e Lorenzo, 7 anos, Breno Comarella, disse que o ano letivo de 2020 foi perdido devido à falta de estrutura pedagógica, que não tinha em casa. Os filhos fizeram o 2º ano na Escola Adão Benezath, em Vitória.
“É importante ter professores formados e qualificados para dar o suporte referente à didática e ao conteúdo escolar necessário, no caso dos meus filhos, à alfabetização”, explicou.
Mãe de quatro crianças, Grazielle Caliman Selvatici Steffen disse que uma das preocupações dos pais é, também, a vulnerabilidade social, emocional e alimentar em que muitas crianças e jovens se encontram devido à falta das aulas presenciais.
Ela é mãe de Melina e Gabriel, ambos de 4 anos e estudantes do Cmei Marlene Orlande Simonetti, em Vitória, e de Matheus, 12 anos, e Daniel, de 10, alunos do UP e SEB, respectivamente.
“Devemos pensar também nas crianças mais carentes que frequentavam as escolas enquanto os pais estavam trabalhando. As refeições nas escolas públicas eram as únicas que elas tinham. Estavam bem cuidadas, tenho relatos de pais que tiveram que deixar crianças cuidando de crianças”, disse Grazielle.
Estado e prefeituras avaliam volta
O governo do Estado e as prefeituras da Grande Vitória estão avaliando se devem ou não voltar com as aulas presenciais.
A Secretaria de Estado da Educação (Sedu) disse que as aulas na rede estadual começarão no dia 4 de fevereiro, mas a definição sobre aulas presenciais, remotas ou híbridas dependerá do Mapa da Risco da Covid-19 e das orientações das autoridades de saúde.
Na região metropolitana, a situação não é diferente. Em Vitória todos os procedimentos relativos à volta as aulas estão sendo debatidos em conjunto com outros municípios e o governo do Estado.
Em Vila Velha, foi criado um grupo de trabalho da Secretaria de Educação, em conjunto com as secretarias de Saúde e Assistência Social, onde está sendo estudada a situação das escolas para ver se há condições e, também, desenvolver diretrizes para o possível retorno.
Em Cariacica, a Secretaria de Educação disse que as aulas voltam na primeira semana de fevereiro, a princípio, de forma remota. Na Serra, a prefeitura informou que o prefeito Sérgio Vidigal vai às escolas para garantir que as normas de segurança e saúde sejam cumpridas. Após este mapeamento, será definida a data de retorno.
O presidente do Sindicato das Empresas Particulares de Ensino do Espírito Santo (Sinepe), Moacir Lellis, disse que o retorno das aulas presenciais está programado para 1º de fevereiro e que serão adotados os mesmos procedimentos de 2020, como uso de máscaras, álcool em gel e medição de temperatura, entre outros.
Riscos e benefícios com a retomada das atividades
A pandemia de Covid-19 expôs desafios que a educação brasileira precisa enfrentar e trouxe opiniões divergentes de especialistas sobre a volta das aulas presenciais. Há quem defenda a retomada e os que preferem o retorno apenas quando o número de mortes e contaminações estiver controlado.
O infectologista Moacir Soprani observa que está ocorrendo novo pico da doença e, com isso, o retorno das aulas aumentaria o risco para todos.
“Reiniciar aulas agora, em fevereiro, creio ser um risco muito grande. Teríamos que ter uma estrutura muito boa e pessoas conscientes, que cumprissem as recomendações, o que não temos”.
Já a psicóloga Claudia Salles acredita que, ao deixarem de ir para a escola, as crianças podem ter prejuízos no desenvolvimento de habilidades sociais, que são as formas de se relacionar com as pessoas e o mundo.
“Mesmo que, virtualmente, elas tenham acesso a outras pessoas, existem comportamentos que não temos acesso no digital. Para as crianças, o lúdico é importante no desenvolvimento”, pontuou.