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“Precisamos cuidar melhor do nosso coração”, diz especialista

A vida moderna trouxe uma série de facilitadores para a rotina corrida, como rápido acesso a pratos saborosos e transporte automotivo. Ao mesmo ...

Henrique Bonaldi diz que, em qualquer idade, vale a pena mudar os hábitos. “Em alguns pacientes, melhora a qualidade de vida. Em outros, altera a mortalidade enormemente”

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A vida moderna trouxe uma série de facilitadores para a rotina corrida, como rápido acesso a pratos saborosos e transporte automotivo. Ao mesmo tempo, essas comodidades viabilizam hábitos que afetam diretamente a saúde do coração, elevando o risco de infarto, acidente vascular cerebral (AVC) e outras cardiopatias.

O cardiologista Henrique Bonaldi compara o estilo de vida atual com o de 30 anos atrás, quando as poucas opções direcionavam as pessoas a uma rotina saudável.

Henrique Bonaldi diz que, em qualquer idade, vale a pena  mudar os hábitos. “Em alguns pacientes,  melhora a qualidade de vida. Em outros, altera a mortalidade enormemente” (Foto: Fábio Nunes/AT)

“Temos cada vez mais facilidades. Com dois toques no celular, o pedido chega em alguns minutos. Isso é um fenômeno! Nossa geração é dependente demais da tecnologia. Estamos comendo mais, e com sedentarismo”, avalia.

Bonaldi pondera que, ao mesmo tempo, também há muito mais opções para seguir uma vida saudável, além de conhecimento científico do que é prejudicial à saúde.

Perfil – Henrique Bonaldi

  • É Graduado em Medicina pela Faculdade Brasileira.
  • Especializado em Clínica Médica e em Cardiologia pelo Programa de Residência Médica da Estadual de São José do Rio Preto (Famerp).
  • É Cardiologista, titulado pela Sociedade Brasileira de Cardiologia.

A Tribuna – Hábitos da vida moderna afetam o coração?

Henrique Bonaldi – Há total relação! Basta olharmos o exemplo de nossos pais e avós, hoje com cerca de 70 ou 80 anos, como eles faziam antigamente: acordavam 4h30 da manhã, comiam o que tinha em casa, que era o mais fresco, iam trabalhar a pé ou de bicicleta, almoçavam alimentos naturais.

Não tinha carro na garagem, a padaria não era ao lado de casa, não tinha tanto condimento na comida. Até então, tiveram saúde porque era parte da vida.

Agora, nós temos cada vez mais sabor e facilidades. Com dois toques no celular, o pedido chega em alguns minutos. Isso é um fenômeno! Nossa geração é dependente demais da tecnologia. Estamos comendo mais, e com sedentarismo.

Como isso está afetando as novas gerações?

A epidemia de obesidade infantil é espantadora. Isso faz total diferença na saúde cardiovascular desse indivíduo quando ele tiver 30 ou 40 anos. Quem hoje está com 60 a 80 anos, está pegando a era da medicina boa, com novos medicamentos, facilidade no diagnóstico e mais.

A saúde terá avançado mais no futuro, mas se fôssemos espertos, iríamos trabalhar de bicicleta e comeríamos melhor. Precisamos cuidar melhor do nosso coração.

As facilidades e opções que há hoje não poderiam contribuir de forma positiva?

Concordo, mas estamos falando de população, e não do indivíduo. Hoje temos muito mais opções boas do que antigamente, alimentos mais saudáveis e baratos, além de termos mais opções de esportes. Podemos fazer montain bike, crossfit, academia. Há várias opções de atividades muito baratas.

E tem um terceiro fator para, individualmente, não ter desculpa para não se cuidar: hoje, a gente detém o saber. Nós sabemos o que é bom ou não para a saúde. Em 1950, as pessoas não sabiam que cigarro fazia mal.

Coletivamente, tomamos uma surra da junk food (comida de baixa qualidade nutritiva) porque é de mais fácil acesso, pelo apelo gustativo, pela moda, pelo rápido preparo e porque não apodrece rápido, ou seja, pode deixar na geladeira por dias que não estraga.

Quais fatores aumentam o risco cardiovascular?

São 11 grandes fatores, entre eles, hipertensão, diabetes, sedentarismo, obesidade, tabagismo e genética.
Dos problemas de saúde, do mais comum ao mais difícil e pior, os primeiros problemas que vêm por causa de má alimentação são: hipertensão, colesterol alto, diabetes e obesidade.

Passa a ser fator de risco para infarto, AVC (acidente vascular cerebral, conhecido como derrame), insuficiência renal, cegueira, amputação, um problema conhecido como infarto do intestino. Os mais comuns são derrame e infarto.

Hoje, no Brasil, a doença cardiovascular mata quase 350 mil pessoas por ano. São quase mil mortes por dia. Temos de parar para pensar nossas atitudes! Sim, que uma hora vamos morrer, mas o fator idade é importante.

Mas não podemos deixar de ter qualidade de vida porque bobeou por anos e tratou mal o organismo. Sim, comer mal e não se exercitar é tratar mal o organismo!

Além de alimentação e exercícios, o que mais interfere?

O que deflagra o infarto é o estresse físico ou emocional. Além disso, a depressão é fator independente para morte cardíaca. Ou seja, o paciente não tem nenhuma outra condição de risco, mas ele tem risco elevado só de ser depressivo.

A mudança de hábitos tem efeito em qualquer fase da vida?

Em qualquer momento, vale a pena adotar hábitos melhores. Em alguns pacientes, melhora a qualidade de vida. Em outros, altera a mortalidade enormemente.

No caso de um paciente de 22 anos, hipertenso e diabético: se ele transformar os hábitos dele, em vez da expectativa de vida ser 45 anos, vai passar para os 80 anos. Quanto antes conseguir agir, mais tempo de vida tem pela frente.

Como cuidar melhor da saúde do coração?

Cinco pontos estão no guideline (diretriz) da Sociedade Brasileira de Cardiologia: alimentação saudável, atividade física, sono regrado, descanso (ou seja, sem ansiedade) e espiritualidade (acreditar, ter fé, saber que algo te move, mesmo que inexplicavelmente).

É difícil modificar o indivíduo. E quanto mais velho, mais difícil é mudar. Então, a ideia é se esforçar por 14 dias: o 15º dia será melhor.

São comuns casos de pacientes jovens?

Está cada vez mais comum o jovem infartado. Se antes, era raro no plantão de UTI coronariana, agora tem em todas as semanas.

Não é só aquele cara do esterótipo obeso e que fuma. Quem pratica atividade física também está parando na UTI. Se exercita sem se capacitar, faz uso de anabolizante, com uso de droga concomitante, segue uma vida desregrada na mesma proporção que se exercita, e o corpo não aguenta.

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