
A história do engenheiro civil Kaitto Corrêa Fraga, hoje com 24 anos, é exatamente assim. A Tribuna chegou a acompanhar a sua história, em maio de 2014. Ele nasceu surdo e usava o aparelho tradicional.
Em 2007, Kaitto, então com 12 anos, foi a primeira pessoa do Estado a se submeter a um implante coclear, que consiste num dispositivo para restaurar a função da audição. “Nunca me importei com a minha deficiência, e consegui me superar. Mas foi um milagre de Deus”, disse.
Em 2014, ele operou o segundo ouvido e, desde então, leva uma vida normal e já se formou na universidade. “É uma felicidade que não cabe no peito, pois consegui realizar meu sonho e o dos meus pais, de me verem formado e ter meu curso superior”.
O engenheiro explicou que, apesar do equipamento, ainda não consegue ouvir claramente, mas se sente vitorioso por trabalhar na área em que estudou.
Kaitto se surpreendeu dia após dia com a percepção dos primeiros sons, no momento em que o aparelho foi acionado. Uma emoção não só para ele, mas para toda a família, que mora na Serra.
“Sabemos que ele escolheu uma faculdade difícil. Mas nunca tive problemas com ele nos estudos, pois sempre teve muita responsabilidade”, comemorou a empresária Andréia Cristina Corrêa, 52, mãe de Kaitto e de Matheus, de 9 anos.
CIRURGIA
Os otorrinolaringologistas Antonio Fernando Nogueira Maciel e Giulliano Enrico Ruschi e Luchi, com outros médicos, criaram o grupo Ouvir, com o objetivo de trazer mais vida aos deficientes auditivos.
A partir desse programa, eles foram os primeiros médicos a realizarem o implante coclear no Estado, em 2007. De lá para cá, foram mais de 100 cirurgias no Espírito Santo para trazer a audição de volta.
Os implantes funcionam, segundo Antonio, em danos auditivos mais severos. “O aparelho possibilita enviar as informações sonoras diretamente ao nervo auditivo, como sinais elétricos, e recriar as sensações sonoras”, relatou
“O som que mais gostei foi o das ondas quebrando” – Kaitto Corrêa
A Tribuna – Como era a sua vida antes do implante?
Kaitto Corrêa – Não correspondia aos sons agudos, como o mar, assobios, chuva, e tinha muita dificuldade de acompanhar as conversas. Não reconhecia as vozes dos meus pais. Era uma sensação de não ouvir o mundo, um silêncio absoluto. Parecia que estava dormindo.
A Tribuna – Como foi a emoção do dia de ter voltado a ouvir, há 12 anos?
Kaitto Corrêa – Lembro perfeitamente que mamãe abriu a torneira para lavar as louças e, naquele instante, tomei um grande susto, pois não conhecia o som da água descendo pela torneira. Foi aí que me emocionei.
O som que mais gostei foi o barulho das ondas quebrando. Além disso, antes não reconhecia as vozes dos meus pais.
A Tribuna – O que mudou?
Kaitto Corrêa – Antes, as pessoas tinham que me tocar para me chamar. Hoje, consigo responder quando as pessoas me chamam pelo nome. Sou outra pessoa e não tenho medo mais.
A Tribuna – Você se sente vitorioso?
Kaitto Corrêa – A minha autoestima melhorou, sou uma pessoa realizada e feliz.
