A Constituição Federal assegura que a saúde é direito de todos e dever do Estado, garantido mediante políticas sociais e econômicas que visem à redução do risco de doença e de outros agravos e ao acesso universal e igualitário às ações e serviços para sua promoção, proteção e recuperação.
Mas na prática, quem depende de alguns medicamentos para tratar doenças como câncer, Alzheimer e glaucoma, tem saído com as mãos vazias das Farmácias Cidadãs devido a falta no estoque.
A gerência de Assistência Farmacêutica, da Secretaria de Estado da Saúde (Sesa), informou que dos 260 medicamentos padronizados disponíveis nas Farmácias Cidadãs, no momento estão em falta cinco de responsabilidade de fornecimento do Estado e cinco do Ministério da Saúde.
Para o presidente da Associação Médica do Espírito Santo (AMES), Leonardo Lessa Arantes, isso representa um risco ao paciente, que pode ter a doença agravada.
“É muito temerária a falta de medicamentos. Isso é falta de gestão. Não houve previsão de que as pessoas precisam desses remédios? Não houve uma compra antecipada? A população não pode ficar sem. No caso dessas doenças, a medicação é fundamental e a interrupção do fornecimento atrapalha o tratamento das doenças, a vida das pessoas e pode levar a casos graves”.
Segundo o oncologista clínico, Luiz Gustavo Berriel, a falta acontece com frequência e que os pacientes acabam tendo seus tratamentos restritos, visto que muitos remédios custam um alto preço, como o Leuprorrelina 3,75 mg, indicado para o tratamento de câncer de próstata e outras doenças, que custa em média R$ 900.
“Geralmente pegamos pacientes que precisam de medicações mais complexas. Já peguei muitos deles que não conseguiram o remédio necessário nas farmácias, prejudicando o tratamento”.
A reportagem A Tribuna esteve em algumas Farmácias Cidadãs da Grande Vitória e pacientes relataram que essa falta é frequente.
Uma dona de casa, que não quis se identificar, retira medicamentos para um familiar acamado por conta de um acidente. Ela esteve ontem no local. “Não encontrei o Desferroxamina e vou precisar retornar quando houver disponibilidade. Só que ainda não há uma data”.
O Estado conta hoje com 14 Farmácias Cidadãs e a falta é realidade em algumas cidades.
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Espera
Vinte dias. Foi esse o tempo que a empresária Stephanie Azevedo, de 34 anos, ficou esperando a chegada do Quetiapina, um remédio antipsicótico, na Farmácia Cidadã de Vitória.
“Precisei comprar um remédio que custa mais de R$ 90 e é de extrema importância”, relatou a empresária, que ontem conseguiu o remédio.
Há 3 anos ela pega o remédio na Farmácia Cidadã.
“Prejudica não só o paciente, mas também a farmácia, pois a demanda de atendimento no momento que os remédios chegam é alto”, disse.
Saiba Mais
Solicitação de medicamento
> A demanda por medicamento é livre, e para abertura do processo de Solicitação de Medicamentos, o paciente ou responsável legal deve comparecer a uma Farmácia Cidadã de referência de seu município residente, portando os documentos informados no site farmaciacidada.es.gov.br.
> Em caso de dúvidas, informações estão disponíveis nos telefones 3636-8416/3636-8417/3636-8418, nos dias úteis, de 7h às 18h.
> O acompanhamento da disponibilidade dos medicamentos padronizados também pode ser feito no site da Farmácia Cidadã, onde a lista é atualizada duas vezes na semana.
Os medicamentos em falta
Fornecidos pelo Estado
> Desferroxamina 500 mg injetável (por frasco-ampola): utilizado para tratar a intoxicação aguda por ferro; acúmulo crônico de alumínio em pacientes com doença grave nos rins que necessitam de diálise regularmente.
> Dorzolamida 20 mg/ml solução oftálmica (por frasco de 5 ml): indicado para reduzir a pressão intraocular elevada e tratar o glaucoma.
> Gabapentina 300 mg (por cápsula): anticonvulsivante que age regulando substâncias químicas no cérebro e nos nervos, sendo indicado para tratamento de crises convulsivas em adultos ou crianças com mais de 12 anos, ou dor neuropática causada por diabetes ou herpes zoster, por exemplo, em adultos.
> Leuprorrelina 3,75 mg injetável (por frasco-ampola): indicado para o tratamento de: câncer de próstata em estágio avançado, mioma no útero, endometriose, câncer de mama avançado, em associação ao tamoxifeno, em mulheres na pré e perimenopausa e puberdade precoce em crianças.
> Rivastigmina 2,0 mg/ml solução oral (por frasco de 120 ml): usado no tratamento da doença de Alzheimer e doença de Parkinson, pois aumenta a quantidade a acetilcolina no cérebro, uma substância importante para o funcionamento da memória, aprendizagem e orientação do indivíduo.
Fornecidos pelo Ministério da Saúde
> Galantamina 16mg / 24mg/ (por cÁpsula de liberação prolongada): indicado para o tratamento sintomático da demência do tipo Alzheimer de intensidade leve a moderada, e tratamento sintomático da demência de Alzheimer de intensidade leve a moderada com doença vascular cerebral relevante.
> Levetiracetam 250 mg (por comprimido) / 100 mg/ml solução oral (por frasco de 100 ml): é indicado como monoterapia (tratamento com um único remédio para o tratamento de crises parciais, com ou sem generalização secundária em pacientes a partir dos 16 anos com diagnóstico recente de epilepsia.
> Quetiapina 25 mg (por comprimido): tem indicação para tratar distúrbios mentais. Ou seja, sua ação regula a serotonina e a dopamina no cérebro. Assim, melhora o humor, o pensamento e o comportamento.
Fonte: Secretaria de Estado da Saúde e pesquisa A Tribuna.
O outro lado
Compra programada
A Secretaria de Saúde esclareceu que, referente aos medicamentos de responsabilidade do Estado, o maior problema tem sido relacionado aos processos de compras fracassados e desertos por conta de problema de mercado, e que as medidas cabíveis estão sendo adotadas.
“É importante frisar que as compras são programadas para que não haja desabastecimento na rede. No entanto, esclarece que algumas faltas estão relacionadas também a outros fatores externos, como problemas de atraso nas entregas ou medicamentos que são de responsabilidade do Ministério da Saúde. Lembrando também que devido a pandemia, o mercado de medicamentos sofreu reflexos com a suspensão de fabricação ou falta de insumos”, disse, por nota.