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Universitária de 22 anos à espera de um coração

Aos 19 anos, a estudante de administração Bárbara Coitinho Nunes infartou. Uma semana depois, tomava café quando a xícara caiu de sua mão. Estava ...

Bárbara Nunes: somente 30% do coração dela está funcionando. “Não posso nem mesmo arrumar a casa”

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Bárbara Nunes: somente 30% do coração dela  está funcionando. “Não posso nem mesmo arrumar a casa” (Foto: Kadidja Fernandes/AT)

Aos 19 anos, a estudante de administração Bárbara Coitinho Nunes infartou. Uma semana depois, tomava café quando a xícara caiu de sua mão. Estava tendo um acidente vascular cerebral (AVC). Hoje com 22 anos, apenas 30% do seu coração está em funcionamento e ela aguarda um transplante do órgão. “Estou há um ano esperando o telefone tocar”, diz.

De acordo com os dados da Central Estadual de Transplante do Espírito Santo, atualmente 1.333 pessoas aguardam na fila para receber um órgão. Desses, quatro aguardam um coração.

Moradora de Viana, a jovem estava indo trabalhar quando começou, num ônibus, a sentir a pressão caindo. “Quando entrei no prédio onde trabalhava, desmaiei. Quando eu voltei à realidade, senti muitas dores no peito. Meu esposo me buscou, me levou para o hospital. Como eu era nova, nem diagnosticaram como infarto. Disseram que tinha uma bactéria no estômago”.

E não era. O tempo passou, e Bárbara continuou sentindo dor no peito e nos braços, vomitava demais. “Uma semana depois, me deu o AVC. Tentei chamar minha mãe, a voz não saía. Corri até ela e minha perna direita parou. E eu perdi a fala. Perdi o raciocínio”, lembra.

De ambulância do Samu, parou no hospital. “Fizeram tomografia, e detectaram o AVC (que não deixou sequelas). Disseram que o infarto podia ter relação com meu anticoncepcional”, revela.

O entrave de diagnósticos, explica Bárbara, piorou o enredo: “Como não descobriram no dia do infarto, meu coração ficou muito fraco. Só 30% dele está funcionando. Ele está muito sobrecarregado. Então, desde setembro do ano passado comecei a fazer os exames preparatórios para o transplante. O médico disse que posso ter uma morte súbita”, conta a jovem.

Cirurgião responsável pela equipe de transplante de coração do Hospital Meridional, Melchior Lima explica que os pacientes indicados para transplante são os que estão em insuficiência cardíaca avançada. “Não conseguem amarrar um sapato. Após o transplante, deixam de ter aquela falta de ar”.

Segundo Melchior, quando o coração surge, é uma corrida contra o tempo. “Tem que contatar todos os pacientes da fila para ver a compatibilidade e tudo tem quem ser feito em menos de quatro horas. Às vezes tem até que captar o coração em outro Estado”.


Entrevista – Bárbara Coitinho Nunes, universitária: “Ansiedade e angústia tremendas”


A Tribuna  – O que o médico diz para você sobre o transplante de coração?

Bárbara Coitinho Nunes – O médico disse que posso ter uma morte súbita. Tanto é que, no último dia 2, eu fiz uma cirurgia para colocar um CDI (cardioversor desfibrilador implantável) para tirar essa possibilidade e ganhar tempo para o coração chegar. Enquanto isso, tomo três remédios por dia.

E você vive à espera de o telefone tocar?

Estou há um ano esperando o telefone tocar. É uma ansiedade tremenda. É angustiante. Esperar um ano não é fácil, ainda mais quando é relacionado à nossa vida. Ninguém quer morrer. Mas nunca chegaram a me ligar. Nem para depois dizer que não seria eu.

Como deve ser o órgão doado para você?

Me explicaram que tem que ser um coração de uma pessoa menor de 45 anos, B positivo – meu tipo de sangue – e o coração estar saudável, assim como o doador.

O que você deixou de fazer por conta do funcionamento de apenas 30% do coração?

Tudo. Deixei de trabalhar, que eu gostava muito. Eu ficava uma semana trabalhando e um mês internada, então parei. Deixei de estudar. Só voltei agora porque está online. Estou no segundo período de administração de empresas. Deixei de sair também, porque me sentia muito cansada.

Fazia academia, e não faço também por conta do cansaço e porque eu não posso mesmo. Uma coisa que é muito normal e não faço é arrumar a casa. Varrer a casa e dobrar roupa, por exemplo, eu fico muito cansada. Se eu teimar em fazer, tenho que ir para o hospital à noite. Nem movimentos bruscos eu posso fazer.

Como supera a angústia?

Eu tenho uma fé muito grande. Sou evangélica. Oro todos os dias. E é isso que não me deixa desanimar. Eu penso que se fosse outra pessoa, já teria desistido. E a gente, quando é novo, quer fazer de tudo, mas eu não posso. Às vezes a gente fica triste, se pergunta porque aconteceu isso. Mas eu tento pensar no melhor jeito possível.

Quando o coração chegar, o que você mais vai querer voltar a fazer?

Fazer um exercício físico. Eu sinto muita falta. E também poder sair, correr e brincar. Fico em casa esperando.

Qual mensagem você quer deixar?

Para os doadores de órgãos. Se mais pessoas fizessem a doação, meu coração já teria chegado. Tem famílias que não levam nem em conta o pedido da pessoa que morreu. Mas tem que pensar que está dando uma esperança para a vida de outras pessoas. É a forma de um recomeço para a outra pessoa.


Saiba mais


56,92 % 

É o índice de recusa atual. Isso significa que, de janeiro a agosto de 2020, 65 famílias foram entrevistadas, sendo que 37 recusaram a realização da doação de órgãos.

Campanha de doação

  • Começou a campanha “Setembro Verde”. Com tema “Espalhe amor! Um coração solidário salva vidas”, o objetivo da ação é conscientizar e estimular a população sobre a importância de ser um doador de órgãos e poder salvar diversas vidas.

  • Para ser doador de órgãos não é necessário realizar cadastro. A pessoa deve apenas informar a família sobre o seu desejo.

1.333 pessoas aguardam na fila para receber um órgão, de acordo com dados da Central Estadual de Transplante do Espírito Santo.

  • 1.000 esperam por rim
  • 301 por córneas
  • 28 precisam de um fígado
  • 4 aguardam um coração.

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