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“Velhice pode ser o melhor da vida”

Felicidade, prazer, saúde, gratidão e contentamento. Essas são algumas palavras que podem representar uma bela velhice, de acordo com a antropóloga e ...

Mirian em uma das palestras que costuma fazer em todo o País sobre o tema da velhice

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Mirian Goldenberg exibe seu livro, que foi lançado em julho e já está na sua segunda edição (Foto: Beto Morais/AT)Felicidade, prazer, saúde, gratidão e contentamento. Essas são algumas palavras que podem representar uma bela velhice, de acordo com a antropóloga e escritora Mirian Goldenberg.

Mas é possível envelhecer e ser feliz? A escritora há mais de 15 anos pesquisa sobre envelhecimento e felicidade e afirma que é possível ter uma velhice mais feliz.

“As pessoas podem sim, ser felizes em todas as fases da vida. Eu encontro, nas minhas pesquisas, as pessoas mais felizes, justamente aquelas que já passaram dos 50 e 60 anos”.

Provar o próprio valor, definir os projetos, saber o que fazer da vida, medos e inseguranças são alguns dos problemas que, segundo Mirian, os mais jovens enfrentam.

“Não gosto de dizer que a velhice é tão boa ou melhor que a juventude, mas é uma fase diferente. E, para muita gente, pode ser o melhor momento de toda a sua vida”, afirma a escritora.

“Muitas pessoas, principalmente as mulheres, me dizem que são muito mais felizes hoje, aos 60 e 70 anos, do que quando eram mais jovens, fase em que eram inseguras, que elas queriam agradar a todo mundo e ficavam se comparando”, completa.

Apesar da maturidade e felicidade que essa fase pode trazer, há quem tenha medo desse momento, de acordo com a antropóloga.

“Nossa cultura diz que é lindo ser jovem, magro e perfeito. Precisamos ser livres e felizes, porém a obsessão com a juventude não traz felicidade”, declarou.

Na hora de falar sua idade, a escritora, de 62 anos, afirma que “se sente com 93”. Isso porque, ela explica, tem convivido com pessoas dentro dessa faixa etária que conheceu por causa de suas pesquisas.

“Pesquisei mais de 5 mil homens e mulheres, dos 18 aos 105 anos, e vi que esses idosos são saudáveis, independentes, com projetos, dançam, escrevem e têm uma vida feliz. Eles me ensinam a viver bem desde já”, pontuou.

A Tribuna – Como surgiu a ideia de pesquisar e falar sobre a velhice?
Mirian Goldenberg – Sou pesquisadora há mais de 30 anos, mas há 15 anos comecei a pesquisar sobre envelhecimento e felicidade. Tenho estudado, nos últimos anos, mais de cinco mil pessoas de 18 a 105 anos.

Em uma apresentação de um TED, em São Paulo, falei sobre “A invenção de uma bela velhice”, com base nas minhas pesquisas, e esse vídeo viralizou e já passou de mais de um milhão de visualização.

Por causa da repercussão resolvi explorar minhas ideias em meu novo livro, que fala sobre liberdade, felicidade e como a pessoa pode se posicionar sem ter de se preocupar em agradar a todo mundo.

A Tribuna – Então, a velhice seria a melhor fase da vida?
Mirian Goldenberg – Não gosto de dizer que a velhice é tão boa ou melhor que a juventude, mas ela uma fase diferente. E, para muita gente, pode ser o melhor momento de toda a sua vida.

Muitas pessoas, principalmente as mulheres, me dizem que são muito mais felizes hoje, aos 60 e 70 anos, do que quando eram mais jovens, fase em que eram inseguras e queriam agradar a todo mundo ou ficavam se comparando. Existem caminhos para ter uma velhice mais feliz.

Mirian em uma das palestras que costuma fazer em todo o País sobre o tema da velhice (Foto: Divulgação)

A Tribuna – O que a velhice pode proporcionar?
Mirian Goldenberg – A velhice nos dá mais liberdade de ser nós mesmos. Você não tem mais tempo para desperdiçar, tentando agradar todo mundo.

Digo que liberdade é a melhor rima para felicidade. Poder ser você mesmo é a melhor conquista que alguém pode ter. E isso só acontece quando somos mais velhos.

A Tribuna – Os mais jovens seriam menos felizes?
Mirian Goldenberg – Quando mais jovens, somos mais cobrados e exigidos e queremos corresponder aos desejos e expectativas de todo mundo.

E, quando mais velhos, não somos assim. Meu livro fala justamente sobre isso: como podemos conquistar essa liberdade tão desejada.

A Tribuna – Pode dar exemplo de como alcançar essa liberdade?
Mirian Goldenberg – As principais riquezas e conquistas da maturidade são aprender que o tempo é nosso principal capital. Não podemos desperdiçar nosso tempo.

Precisamos também tirar de nossas vidas os vampiros emocionais, ou seja, aquelas pessoas que sugam nossa energia, só criticam, nos põem para baixo e nos fazem mal. Na velhice, não temos mais tempo para esses vampiros emocionais.

Também é importante dizer não. As mulheres, principalmente, têm muita dificuldade de fazer isso. Elas querem agradar a todo mundo. Outra coisa importante, é cultivar a amizade e ligar aquele botão do foda-se. O botão lúdico e libertador, contra a rotulação e o preconceito. Dessa forma, a pessoa será mais livre e feliz.

A Tribuna – Dessa forma é possível envelhecer feliz?
Mirian Goldenberg – Envelhecer é aprender tudo que a velhice pode trazer. É não ter pânico dessa fase.

As pessoas não podem esperar os 60 anos para ser mais felizes. Tem que começar a ser feliz desde cedo. Vejo que os mais velhos são muito gratos por cada dia que vivem. Já os jovens reclamam demais de tudo.

A Tribuna – Afinal, isso é felicidade?
Mirian Goldenberg – Sempre pergunto às pessoas o que te falta para ser feliz? As pessoas dizem dinheiro, sucesso, magreza ou viagens. Há sempre coisas materiais, tem a comparação e uma profunda infelicidade. Aí faço outra pergunta: em que momento do dia você se sente mais feliz?

Elas respondem quando caminham na areia, quando meu filho me abraça ou estou com meus amigos. E, quando eles falam do momento mais feliz, é quando eles não se comparam. E felicidade é isto: estar com quem se ama. É não se comparar.

A Tribuna – Por que as pessoas ainda têm medo de envelhecer?
Mirian Goldenberg – Porque a nossa cultura diz que o lindo é ser jovem, magro, lindo e perfeito. Há até o termo “velhofobia”, que é o pânico e fobia contra velhice. No nosso País, ser velho é feio.

Precisamos ser livres e felizes. Porém, a obsessão com a juventude não traz felicidade.


QUEM É

Mirian Goldenberg
– Antropóloga e professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro.
– Pesquisadora há mais de 30 anos.
– Há 15 anos estuda sobre envelhecimento e felicidade.
– Seu novo livro, “Liberdade, Felicidade & Foda-se”, foi lançado em julho e está na segunda edição.

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