Tristeza, solidão, medo e angústia têm sido sentimentos recorrentes durante a pandemia. Além dos riscos à saúde física, a Covid-19 também tem colocado a saúde mental em perigo e, com isso, o aumento no consumo de remédios contra a depressão e a ansiedade acabou se tornando um desafio para médicos e psicólogos.
A venda de antidepressivos e estabilizadores de humor no Brasil durante a pandemia teve recorde de aumento. São 17% a mais de consumo em 2020.
Os dados são de um levantamento realizado pelo Conselho Federal de Farmácia (CFF), por meio da Consultoria IQVIA, e mostram também que, no Espírito Santo, o aumento foi ainda maior do que a média brasileira, com crescimento de 18% nas vendas desses remédios.
“Os medicamentos em questão são disponibilizados com apresentação de prescrição médica, retenção da primeira via da receita e mediante lançamento no Sistema Nacional de Gerenciamento de Produtos Controlados, o SNGPC”, explica o conselheiro federal de Farmácia no Espírito Santo, Gedayas Medeiros.
Esse aumento reflete as consequências do isolamento social imposto pela pandemia, segundo o presidente da Associação Psiquiátrica do Espírito Santo (Apes), Valdir Campos.
“Muitas pessoas acabaram desenvolvendo quadros depressivos, com necessidade de tratamento medicamentoso”, diz. “Os que estavam com o tratamento sob controle ficaram sem assistência médica, ocorrendo piora do quadro e a necessidade de aumento das doses”, completa.
A neuropediatra Marcela Fraga, do São Bernardo Apart Hospital, observa que não foram apenas os adultos que sofreram os impactos na saúde mental.
“Vejo um aumento grande da ansiedade generalizada em crianças. A falta de rotina, levando a um excesso de telas, jogos eletrônicos, a falta de atividade física e até a falta de sol prejudicam”.
A psicóloga Rubia Passamai destaca que, por um lado, o aumento mostra que as pessoas buscam ajuda especializada, acompanhamento multiprofissional e tratamento.
“Por outro lado, precisamos alertar para que seja feito o uso adequado das medicações, com o acompanhamento de profissionais especializados”.
Estilo de vida
Diagnosticada com transtorno de ansiedade generalizada (TAG), a jornalista Natielen Chiappin Tegner, de 29 anos, faz um tratamento multidisciplinar, incluindo medicamentos para ajudar a controlar e reduzir os sintomas.
Ela conta que, enquanto o remédio contribui para ficar mais tranquila, a terapia ajuda a mudar o seu estilo de vida.
“Tem de ser um trabalho em conjunto. Só o remédio não cura. Com a terapia, consigo mudar o meu pensamento, meu comportamento, o que ajuda a enfrentar a ansiedade”.
Entrevista – publicitária, vítima de depressão “Sinto vergonha e medo de ser assim”
Admitir que tem depressão ainda é um obstáculo para a publicitária de 32 anos, que pediu para não ser identificada. Vergonha de julgamentos por suas atitudes e até do que sente são alguns medos que ela carrega. Para superar a dificuldade, conta com a ajuda de médicos, psicólogos e medicamentos.
A Tribuna – Você tem crises de ansiedade, depressão?
Publicitária – Fui diagnosticada com depressão e tinha crises de ansiedade constantemente.
Acho que os sintomas são muitos sutis no começo, e se confundem com outros sentimentos.
Como são essas crises?
Muitas vezes, são aterrorizantes. Cada músculo do corpo fica tenso, o coração acelera, a mão fica suada, tenho crises de choro, insônia.
As emoções são tão intensas que doem fisicamente. É mentalmente exaustivo. É uma luta diária para não afundar mais do que já estou, para manter a sanidade e o autocontrole.
O remédio te ajudou?
Muito! Junto com a terapia, consegui perceber o que estava acontecendo, me organizar um pouco e manter um certo controle. Sinto que ainda estou longe de superar, mas estou no caminho.
Ficou com medo ou vergonha de procurar ajuda?
Sinceramente, sinto vergonha e medo de ser assim. Muitas pessoas ainda acham que depressão e ansiedade são “frescura”, falta de Deus. Durante as crises mais fortes, tenho atitudes e falo coisas que me envergonho, me arrependo, e não me reconheço nelas. É totalmente irracional.
Agora estou um pouco melhor, mas houve dias em que me faltava energia para sair da cama. Começou a me prejudicar profissionalmente e, por isso, resolvi procurar ajuda. Poucas pessoas sabem que tenho depressão. Da família mesmo, só uma prima.
Acredito que os outros, provavelmente, vão dizer que preciso deixar de frescura e preguiça. Então, prefiro nem compartilhar.
O problema em números
Venda de antidepressivos e estabilizadores de humor
Brasil
| 2017 | 67.696.334 |
| 2018 | 73.833.716 |
| 2019 | 82.763.022 |
| 2020 | 96.622.718 |
Crescimento
| 2017- 2018 | 9% |
| 2018-2019 | 12% |
| 2019-2020 | 17% |
Ranking dos estados com maiores aumentos de 2019 para 2020
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1º Amazonas: 29,4%
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2º Ceará: 29%
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3º Maranhão: 27%
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4º Roraima: 26%
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5º Pará: 25%
Outros dados
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18,6 milhões de brasileiros convivem com o transtorno de ansiedade
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16,3 milhões de pessoas com mais de 18 anos sofrem com depressão no Brasil
Espírito Santo
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2.056.395 caixas de remédios foram vendidas em 2020
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18% foi o recorde de aumento nos últimos 3 anos
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342 mil pessoas sofrem com depressão no Estado
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49,4% dos diagnosticados usam medicamentos antidepressivos
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23,0% fazem psicoterapia
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50,3% têm assistência médica
Fonte: Conselho Federal de Farmácia (CFF), Ministério da Saúde e IBGE.
