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TRÁFICO DE DROGAS

“Vendi meu apartamento por R$ 50 mil e acabei fumando tudo em crack”, diz ex-usuário

Dados revelam que 96% dos municípios capixabas sofrem com este tipo de problema. Cachoeiro de Itapemirim e Ecoporanga estão na lista vermelha

- Heraclius Ribeiro de Araújo

Última atualização

Cidades pacatas, que antes eram tranquilas para se viver, enfrentam agora uma problemática  que já abrange boa parte dos municípios brasileiros: o uso de crack. Dados da  Confederação Nacional dos Municípios revelam que 96,30 % das cidades capixabas sofrem com este tipo de problema.

O relatório, que é  disponibilizado pelo Observatório do Crack, considerou somente as cidades que repassaram as informações ao órgão. Como é o caso de municípios do interior do Estado, onde o nível de problemas relacionados ao uso da droga está alto (que recebe alerta na cor vermelha), com sete cidades incluídas, entre elas Cachoeiro de Itapemirim, Itapemirim, Mimoso do Sul e Ecoporanga. 

Já os municípios onde o nível  é considerado médio (cor amarela) somam 13 cidades como Ibiraçu, Jaguaré e  Mucurici. Os registros de casos na Grande Vitória  não foram informados à CNM. 

“Esse é um dos apontamentos de muita importância nessa pesquisa, pois associam quais níveis os problemas que a utilização de crack e outras drogas provocam nos municípios, tanto para a gestão municipal como para a sociedade como um todo”, explicou o  presidente da Confederação Nacional de Municípios (CNM), Paulo Ziulkoski.

Valber Dias Pinto, que é médico psiquiatra e professor de psiquiatria, explica que   o uso recorrente deste tipo de droga pode ocasionar surtos psicóticos, as paranoias. “Eles  nada mais são do que um delírio de perseguição, ou seja, uma falsa crença de que estão sendo perseguidos”, disse.

Além do uso de crack, o vício em outros tipos de drogas também preocupam. Na Grande Vitória, segundo as prefeituras, dezenas de pessoas recebem apoio assistencial. Instituições sem fins lucrativos também oferecem ajuda como a Associação Encontro com a Vida e Centro Terapêutico, de  Serra Dourada, na Serra, e que já ajudou centenas de pessoas.

“Trabalho ajudando essas pessoas, há 30 anos, justamente porque fui viciado e sei como é. O crack acaba com o viciado e a família, faz a pessoa ter atitudes que nunca teria”, diz o responsável pela clínica, pastor Egrinaldo  Jesus Santos.

Heraclius Ribeiro de Araújo Caldeireiro – “Fumei R$ 50 mil em  crack”

 













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Aos  47 anos, o caldeireiro Heraclius Ribeiro de Araújo vê um filme passar em sua cabeça ao relembrar como o crack devastou sua vida por  20 anos.

“Vendi o apartamento por R$ 50 mil e  gastei ele todo, fumando crack, em cerca de dois meses”, revelou o ex-usuário para  A Tribuna. 

A Tribuna – Como o crack entrou na sua vida? 

Heraclius Ribeiro –  Eu comecei com 19 anos a cheirar um produto que eu passava no carro da minha família. Depois, cola de sapateiro, caí na maconha, cocaína e me afundei com toda minha força no crack. Eu perdi todo meu tempo, família, caráter, perspectiva de vida, e mais um pouco.

Teve influência de amigos?

> Foi falta de sabedoria, porque eu tive educação, tive tudo, mas sempre fui para o lado errado. Foram vinte anos usando crack.

Em que  mais te afetou?

> Nossas atitudes fazem a família se afastar da gente, quando você está no crack, você não pensa em ninguém. Eu tive uma guerreira que lutou por mim, que é a minha esposa, ela lutou e conseguiu me ajudar. Eu cheguei a ficar internado em 10 clínicas. 

O que você chegou a fazer por conta do uso do crack?

> Eu vendi um apartamento e fumei 50 mil em crack. Eu ficava só usando pela rua, isso por dois meses. Esse apartamento era uma herança do meu pai para meus irmãos e eu consegui passar para o meu nome e vendi por um preço bem abaixo do mercado para sustentar meu vício. Só voltei quando eu não tinha mais nada. Até passar fome, eu passei. Deus me restituiu.

Como você resume esse período que foi viciado?

> Uma vida escrava do vício. Eu trabalhei na área de uma grande metalúrgica. Eu tirava um dinheiro legal,só que era para tudo para droga. Vendia as coisas de casa.

Hoje você está liberto?

> Quando eu passei pelo projeto Associação Encontro com a Vida e Centro Terapêutico, eu conheci Cristo de verdade. Lá eu me libertei por completo.  

Voltou para sua família?

> Estou com minha família, tem dois anos que não uso nada, hoje eu sou obreiro na casa de recuperação e busco ajudar quem está nessa vida. Deus fez grandes milagres na minha vida, restituiu minha família e até me deu uma filhinha aos 47 anos.

Venda de casa e mudança para a cracolândia de São Paulo

Para sustentar o vício em  crack, usuários vendem objetos pessoais e até móveis de casa, como aconteceu com um garçom de 30 anos, que luta para se livrar da droga.

Ele, que conversou com A Tribuna com a condição de não ser identificado, e disse que começou com maconha.  “Depois fui direto para o crack. É a pior de todas. Já vendi várias casas, móveis. Depois que vendi todas as minhas coisas, fui morar na cracolândia de São Paulo”, relata o garçom. 

Ele afirma que o vício chegou junto com amigos. “Quando tinha 13 anos, eles falaram: ‘Usa que é bom, você vai gostar! Só não disseram que quando  tivesse 30 anos,  estaria em uma casa de recuperação”.

Foram 15 anos em uma vida que o  garçom garante não valer a pena. “O crack destruiu a   minha vida. Hoje, estou em uma clínica de reabilitação, me tratando. Estou bem. Mas, para aqueles que ainda estão nessa vida, digo que não vale nem um pouco à pena”.

Monitoramento para evitar a entrada de droga no Estado

Para reduzir o tráfico de drogas no Estado, o Departamento Especializado em Narcóticos (Denarc) realiza monitoramento constante para evitar a entrada desses entorpecentes no Espírito Santo. 

“A pena para quem comercializa este tipo de produto está prevista no artigo 33, da Lei nº 11.343/06. A instituição não tem interesse em repassar informações acerca da composição desse material, nem mesmo valor de compra e venda, visto que há um trabalho intenso de combate à venda e uso dessas substâncias”, disse o órgão por meio de nota. 

Para Siderson Vitorino, advogado criminalista, todas as esferas da sociedade precisam estar unidas para solucionar esse problema com o uso de crack. 

“Trata-se de uma patologia social, em que todos nós somos afetados e sentimos os sintomas. Devendo, por tanto, envolverem-se como protagonistas da solução, a família, a escola, a religião, o Estado e o indivíduo”, disse.

Os números

> Municípios com problemas relacionados ao consumo de crack: 96,30%

> Áreas afetadas pelo problema do crack nos Municípios:

Saúde: 74,07%

Assistência Social: 51,85%

Educação: 62,96%

Segurança: 51,85%

> Classificação dos municípios  

Nível alto (vermelho)

> Cachoeiro de Itapemirim 

> Marataízes 

> Mimoso do Sul

> Vargem Alta 

> Ibitirama 

> Pancas

> Ecoporanga

Nível Médio (Amarelo)

> Mucurici

> Boa Esperança 

> Barra de São Francisco

> Mantenópolis

> Governador Lindenberg

> Jaguaré 

> Ibiraçu

> Afonso Cláudio

> Brejetuba 

> Iúna

> João Neiva

> Presidente Kennedy

> Viana  

Observação

> Municípios da Grande Vitória não informaram ao governo federal seus dados.

Fonte: CNM

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