
Quando deixa o trabalho reciclando lixo, Carlos Henrique percorre 15 quilômetros até o curso preparatório para o Enem, em Vila Velha, que frequenta desde junho após ganhar uma bolsa de estudos. O objetivo é conquistar uma vaga no curso de Direito da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), virar juiz e poder fazer os pais deixarem de pagar aluguel na casa onde moram, em Joana D’Arc, Vitória. Hoje, o Enem é a única forma de acesso à Ufes.
“Meus pais também trabalham na reciclagem. Como a gente ganha por produção, o que dá no final do mês não é suficiente. Eles me liberam mais cedo para estudar e dizem que, só assim, vamos melhorar de vida. Vou fazer o Enem, passar, virar juiz e tirar os meus pais do aluguel”, diz.
Vindo da escola pública, Carlos Henrique já sente o esgotamento da rotina entre o trabalho na reciclagem e as aulas com conteúdos não tão fáceis de assimilar. “Às vezes, dá vontade de deitar, porque fico muito cansado”, conta.
Os desafios em sala de aula carregam dificuldades que vão além das frações. “Um menino tentou me ofender dizendo que trabalho no lixão. Eu respondi com um sorriso”, comenta.
Faltando poucas horas para a prova, Carlos Henrique disse que está confiante, “independente da nota de corte”. Diz que sonha em tirar a carteira de motorista e ter um carro. Como não tem condições, foca na carreira de juiz, já que se encantou pelo tema lendo um livro sobre Direito Penal. Agora, vai para a prova confiante no sonho, do mesmo jeito que respondeu ao preconceito: com sorriso no rosto.