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E se for modinha?

Entre tendências e escolhas pessoais, o importante é descobrir o que realmente faz sentido para cada um

E se for modinha?
- Sátina Pimenta é psicóloga clínica, advogada e professora universitária.
Foto de perfil de Sátina Pimenta

Sátina Pimenta

Satina Pimenta é psicóloga, advogada e mestre em Administração, com atuação na interface entre Direito, Psicologia e Gestão. Docente, coordenadora acadêmica e pesquisadora, é Pró-Reitora e Coordenadora de Psicologia no Centro Universitário Estácio Vitória. Palestrante em saúde mental, lidera projetos acadêmicos e idealizou o app EmocionCare.

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Há uma cena em O Diabo Veste Prada em que Andy olha para uma roupa e não entende por que aquela cor é tão importante. Miranda explica que aquele azul não apareceu ali por acaso. Fiquei pensando em quantas coisas que chegam até nós carregam um pouco das escolhas que o mundo fez antes de nós.

Neste fim de semana, Vitória e Vila Velha foram tomadas por corredores. Mais de 20 mil pessoas participaram da Dez Milhas Garoto, e era bonito ver aquela multidão ocupando a cidade. E aí sempre aparece alguém: “Ah, agora todo mundo está correndo. Virou modinha”. E eu fico pensando: e se for? Qual é exatamente o problema?

Moda existe. Sempre existiu. Nas roupas, nos cortes de cabelo, nos restaurantes, nos esportes, nos livros, nas músicas. Uma coisa ganha visibilidade, mais pessoas experimentam, algumas gostam, outras não. A moda chega para todo mundo, mas não significa a mesma coisa para todo mundo.

Pode ser que alguém tenha começado a correr porque viu todo mundo correndo e, no caminho, tenha descoberto que gosta. Pode ser que outra pessoa tenha olhado para a corrida, achado interessante e pensado: “Não é para mim”. E está tudo certo nos dois casos.

Uma não é mais autêntica porque corre, e a outra não é mais original porque prefere outra atividade.

Às vezes parece que precisamos provar que nossas escolhas são originais para que tenham valor. Se está na moda, desconfia-se. Se todo mundo faz, perde a graça. Como se gostar do que muita gente gosta significasse falta de pensamento próprio. Mas também existe uma vaidade em ser “do contra” o tempo inteiro. E ninguém merece transformar a personalidade em campeonato de quem chegou primeiro.

A questão não é fugir da moda para provar autenticidade. Também não é segui-la para garantir pertencimento. É poder olhar para aquilo que está diante de nós e escolher conscientemente.

Posso olhar para uma roupa que está em alta e pensar: “Deus me livre, pareço uma cortina”. Posso começar um esporte porque minhas amigas começaram e descobrir uma paixão. Posso concluir que aquilo não tem nada a ver comigo. Posso até mudar de ideia depois. Personalidade não é contrato de gaveta.

O problema não está na moda. Está quando deixamos de perceber o que sentimos, queremos e pensamos porque estamos ocupados demais tentando corresponder ao que esperam de nós. Mas também está quando rejeitamos alguma coisa apenas porque ela se tornou popular, como se gostar do que muita gente gosta diminuísse a nossa individualidade.

Talvez autonomia seja justamente isso: poder pertencer sem precisar desaparecer. Poder gostar sem precisar justificar. Poder não gostar sem precisar desprezar. Poder experimentar sem transformar uma escolha em identidade definitiva.

No fim, talvez a pergunta não seja “Isso é modinha?”. A pergunta mais interessante é: “Isso faz sentido para mim?”.

Se fizer, vai. Se não fizer, não vai. E se amanhã mudar de ideia, está ótimo também.

A vida já tem coisa demais tentando decidir por nós. Pelo menos o gosto pessoal poderia continuar sendo nosso.


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