
Apesar da sensação difusa de desejo de mudança, as principais forças políticas do país se posicionaram para o pleito apostando em acirrada disputa por coligações que assegurem maior tempo de propaganda eleitoral, concentração de financiamento nos caciques políticos e negociações pouco republicanas nos bastidores das campanhas. Sobra pouco espaço para inovar.
O Congresso brasileiro aprovou uma minirreforma eleitoral, Lei 13.488/17, com alterações substantivas nas campanhas realizadas nos meios de comunicação, dentre as quais evidenciamos a liberação de impulsionamento de conteúdo na internet. A possibilidade de usar ferramentas informáticas para impulsionar conteúdos em redes sociais significa que candidatos e partidos poderão manter estratégias claramente direcionadas para disseminar o conteúdo de suas campanhas eleitorais, porém essas estratégias serão bastante custosas. O Facebook informou, recentemente, que a tabela de preços para anúncios é acrescida conforme aumenta a procura.
Dessa forma, se o intuito do uso da rede é contrapor o desequilíbrio financeiro e estrutural entre as campanhas, a cobrança por impulsionamento de conteúdo tende a privilegiar as candidaturas com mais recursos. A tendência é de redes menos espontâneas ou propensas a candidaturas que não possam pagar para serem vistas.
O segundo desafio também é relacionado aos algoritmos que determinam o conteúdo exposto aos usuários da internet. Esses códigos são orientados por sofisticados programas de inteligência artificial, que tendem a expor aos usuários conteúdos orientados pela sua própria experiência de utilização das ferramentas tecnológicas. Dessa forma, o algoritmo mantém a exposição de conteúdo circunscrita à denominada bolha, moldada pelas interações mais frequentes entre pessoas que pensam de forma parecida, compartilham valores e comungam práticas.
Para furar o padrão de interação dos internautas e oferecer mensagens não compartilhadas nas suas interações, as campanhas deverão pagar pelo impulsionamento de conteúdo ou recorrer às tecnologias que não passem por essa clivagem, como grupos de WhatsApp, ferramenta que tende a ser ainda mais efetiva nessa campanha, como demonstrou a recente greve dos caminhoneiros.
O terceiro fator decorre que o posicionamento das candidaturas nas redes sociais requer tempo, investimento na formação de redes, arregimentação de seguidores. Com a proximidade do pleito parece inviável que candidaturas neófitas no espaço virtual consigam moldar estilos e conquistar espaço entre eleitores sem que isso pareça artificial.
Por fim, o cenário político demonstra que há uma fadiga do eleitorado em relação aos candidatos e, dessa forma, as redes temem que o excesso de anúncios eleitorais afaste o usuário de suas plataformas, o que afeta seus valores de mercado. Tal desgaste exerce impacto menor nos meios de comunicação tradicionais, como TV e rádio. Essa eleição foi moldada, portanto, pelo establishment político para reproduzir o status quo, devendo frustrar esse anseio difuso de mudança percebido na sociedade, e a internet não será suficiente para alterar o quadro eleitoral de forma significativa.
Irineu Barreto é pós-doutorando em Sociologia pela USP e doutor em Ciências Sociais pela PUC-SP