Por que a notícia de uma baleia encontrada morta nas Filipinas com 40 quilos de plástico no estômago deve chamar a atenção dos mamíferos humanos? Se um animal marinho quase sem predadores é abatido pelo lixão em que estamos transformando a Terra, imagine nós?
A morte da espécie baleia-bicuda-de-cuvier é sintomática porque revela uma catástrofe com prazo determinado. As previsões reveladas no Fórum Econômico Mundial de Davos são de que, se nada for feito para frear o uso indiscriminado e o descarte inapropriado de plástico, em 2050, haverá mais lixo que peixes nos oceanos.
O que o estômago da baleia mostra é só uma parte do que não conseguimos ver. O pescado e outros mariscos que vão para nossa mesa estão contaminados por microplástico, material tão pequeno que às vezes é invisível a olho nu. Não raro, o plástico microscópico é confundido com alimento pelos seres marinhos.
Não pense que o plástico nos oceanos é um problema que afeta apenas baleias, tartarugas, peixes, golfinhos… Na nossa cadeia alimentar o homem está na ponta. Quem não é adepto da dieta vegana certamente tem esse “nutriente” em sua alimentação.
Estudo apresentado no 26º Congresso Europeu de Gastroenterologia, em Viena, mostrou que ingerimos regularmente pelo menos nove tipos diferentes de plástico. O que os pesquisadores estudam agora são os efeitos desse material no organismo humano.
São cerca de 400 milhões de toneladas de plástico produzidas por ano. Boa parte tem como destino os rios e mares, sem paradeiro definido. Os corpos hídricos não têm barreiras. Desse modo, o que é descartado no Japão pode chegar ao Brasil ou qualquer parte do mundo e vice-versa.
Esse material presente em nosso cotidiano ganhou uso indiscriminado e hoje é um grande desafio em escala global. Reduzir a quantidade de plástico, especialmente de uso único, e trabalhar maciçamente a importância da reciclagem são ações urgentes.
Retroceder no uso do plástico é avançar na preservação da natureza e da vida. O Brasil é o quarto maior produtor de plástico no mundo, só atrás de Estados Unidos, China e Índia.
Por isso, é necessário que o País avance em políticas de redução de uso do plástico. Uma das ações pode ser a cobrança pelo uso de sacolas plásticas, medida já adotada em outros países.
Também é necessário pôr em prática o que diz a Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS) sobre a logística reversa, que trata da responsabilidade das empresas quanto à destinação adequada de embalagens produzidas.
Salutar ainda adotar mecanismos de incentivo a empresas que reduzam o uso de plástico nas embalagens. Cada cidadão não pode deixar de fazer sua parte, por isso, a educação ambiental é fundamental.
Quando eu era criança, ainda na fase de alfabetização, escrevi uma redação com o título: “A baleia azul é majestosa”. Minha mãe e irmãs certamente lembram dessa passagem. Tia Francisca, a professora, ficou tão extasiada com a criatividade e riqueza de detalhes com que descrevi o animal, mesmo sem nunca tê-lo visto de perto, que fez questão de falar com a diretora da escola e meus pais sobre o feito.
Só desejo que outras crianças tenham, como tive, a oportunidade de escrever ou apenas contemplar baleias livres e imponentes, animais, plantas, humanos… Enfim, que elas possam falar sobre vida!
Nicolle Expósito é jornalista e ativista ambiental