Prezados leitores, o conto “O espelho”, de Machado de Assis, é uma boa metáfora para a reflexão da representação de permanência da farda no imaginário individual e coletivo do processo histórico brasileiro.
No conto, Machado de Assis nos apresenta o jovem Jacobina, que, nomeado Alferes pela Guarda Nacional, vai passar algum tempo com a tia rica e proprietária rural, que lhe cobriu de regalias como prova de orgulho pela patente conquistada por ele.
Motivo pelo qual, ela ordenou que os escravos pendurassem um grande espelho no quarto do hóspede, para que ele pudesse mirar-se.
A partir de então, tudo mudou em sua vida. A percepção que tinha de si mesmo passou a ser aquela que os outros tinham dele, e a pessoa que Jacobina era não mais existia.
Aconteceu, todavia, que a tia teve que viajar urgentemente e deixou aos cuidados de Jacobina a direção da fazenda. Este, certo dia, acordou e percebeu que estava só e a propriedade não tinha vivalma.
Assim, passou os dias perdido nas sombras da solidão e angustiado por lhe faltar a “alma exterior”, fruto da imagem que os outros faziam dele.
Em dado momento, decidiu olhar-se no espelho e percebeu que a imagem ali refletida estava corrompida e difusa… Não conseguindo enxergar a si mesmo com nitidez, ele resolveu vestir a farda e mirar-se. Dessa vez, a imagem refletida era nítida, com clareza e contornos.
De fato, o conto de Machado de Assis pode ter múltiplas leituras em torno da essência e da aparência. Porém, a farda como sinônimo de “alma exterior” no sentido de manter a sanidade da “alma interior” é representativo.
No Brasil, existe por parte de frações sociais importantes um preconceito vulgar e acadêmico em relação aos militares, sobretudo do Exército.
Como não se pode abstrair o seu papel no processo histórico republicano, tenta-se inquecê-lo – esquecer de lembrar – desqualificá-lo. Ora direis! É uma instituição autoritária, conservadora, repressora, enfim, antidemocrática.
Se considerarmos que conceitos são construções dinâmicas e dependem da concorrência de memórias e das especificidades temporais dos contextos históricos – podemos ponderar que o autoritarismo é uma questão cultural que permeia todas as classes e instituições, e não apenas a farda; que conservadorismo estabelece sintonia com valores ridicularizados de pátria, família e sagrado; repressão como dever de coerção do Estado contra meliantes dos crimes organizados e desorganizados e que ser antiliberal como recusa ao presidencialismo de coalizão não é ser antidemocrático, e sim, crítico de um liberalismo de liberdades absolutas.
Com efeito, Naro soube interpretar e agir contra a imagem refletida claramente pelo espelho de nossa contemporaneidade: naturalizar ações de piratas privados, burocratas patrimonialistas, peculatários e corruptos, mídia e artistas ambiciosos e predatórios e criaturas vorazes do pântano político.
Fardado, ele vislumbrou que só quando verdadeiramente a nação fosse governada democraticamente por um soldado-cidadão é que ficaria livre das garras dos traidores, dos sabujos que lhe envenenam a vida pública, porque só em instituições como o Exército é que não medram estas raças e que a verdade difusa, acanhada, de valores como pátria, família, sagrado, mérito, hierarquia e disciplina ainda são imagens refletidas no grande espelho da sociedade brasileira.
Carlos Vinícius Costa de Mendonça é professor de História da Ufes