
Um articulista chegou a acusar a universidade, em geral, e a Ufes, em particular, de serem “um mundo paralelo”, eivado “de festas regadas a bebidas, drogas e sexo”.
Ninguém é romântico de imaginar que a universidade pública, como qualquer organização complexa, não tenha problemas. Mas rotulá-las como mero centro de doutrinação revelam total desconhecimento acerca das suas rotinas, dos seus processos internos, bem como sobre o ambiente múltiplo e plural que é. Quanto a sua qualidade, o seu desempenho no que tange à pesquisa, ensino, extensão, registro de patentes e publicações em periódicos de destaque, canais voltados para medir qualidade das instituições de ensino superior, também suscetíveis a críticas, mostram o seu peso, pois as universidades públicas são campeãs.
Em outras manifestações apontaram a postura dos professores ofertantes dos cursos, por se dedicarem a um tema recente da história, inadequado, segundo essa visão, ante o envolvimento do observador com o objeto. Segundo tal entendimento, o distanciamento histórico gera análises isentas de partidarismos, como se algum conhecimento científico fosse isento! Sobre o problema do distanciamento, a chamada história do tempo presente, ramo da historiografia, quebrou esse paradigma ao problematizar sobre a noção de tempo e a indissociabilidade entre o passado, presente e futuro. Há, inclusive, passados que não passam, diria koselleck!
Ademais, todo fenômeno histórico ou personagem de importância são disputados pela memória, sobre os quais também são forjadas diferentes narrativas, que passam a ser alvo de disputas ideológicas. Sobre a escravidão, por exemplo, há diversas interpretações, sempre pautadas em divergentes versões do passado. Tomamos partido por uma, tanto quanto de um fenômeno do tempo presente, como é o caso da crise de 2016. O mesmo poderíamos dizer sobre as diferentes narrativas do Golpe de 64, do Holocausto, da Revolução Francesa. Posições acerca de fenômenos mais remotos não são alvo de questionamentos, pois o distanciamento, simplesmente, faz minimizar certas polarizações.
E tal como indagou uma aluna “em vez de enfrentar o debate, a universidade deveria então ser o lugar onde nos encontramos para tomar chá e conversar sobre banalidades?”. Ao ofertar tais cursos, a universidade pública cumpre o seu papel social, que é o de discutir temas da atualidade, conforme as diretrizes curriculares nacionais. Cabe a ela ofertar cursos sobre o Golpe de 2016, ou sobre qualquer tema atual, possui liberdade de cátedra para isso! Por conta desse perfil, também tem mais liberdade quanto aos seus currículos, o que proporciona a criação de disciplinas optativas com ementa aberta, como é o caso.
A universidade, por fim, tem a missão de se debruçar acerca de todo fenômeno que se apresenta como problema, sem restrições e constrangimentos. Deve promover o debate plural e democrático, conforme determinam seus estatutos.
Ueber José de Oliveira é doutor em Ciência Política e professor do Departamento de História – Ufes