A medicina praticada hoje é pautada pela evolução. A todo tempo surgem novos tratamentos, procedimentos, exames, técnicas e equipamentos que curam ou amenizam doenças. Mas nem sempre foi assim. Há três séculos, os métodos ainda eram rudimentares, o conhecimento restrito e o sofrimento dos pacientes inimaginável.
Nas cirurgias, a situação era pior. Antes da descoberta da anestesia, por exemplo, as intervenções eram feitas em locais pouco higiênicos, com muita dor e rapidamente para tentar reduzir, ao máximo, o sofrimento do paciente. Como citou o médico Peter Jacobsohn em um ensaio sobre os primórdios da anestesia “A habilidade de um cirurgião era medida pela velocidade de sua faca”.
Pois foi aí, no controle da dor, que nasceu uma das maiores transformações da medicina. Com a descoberta de substâncias que a inibiam, as operações, antes realizadas em caso extremos, tornaram-se rotina e com aplicabilidade em enfermidades diversas. De exames preventivos a complicados transplantes de órgãos, tudo se tornou possível graças à anestesia.
A grande evolução veio ao acaso, em meados do século 19, quando o dentista americano Horace Wells assistia a um espetáculo em que um homem sob o efeito do gás hilariante não demonstrava sentir qualquer dor ao bater violentamente a perna numa cadeira. A curiosidade fez Wells buscar mais informações e até experimentar, nele mesmo, a extração de dente sob o efeito da tal substância. Surpreso com a retirada indolor do dente, ele desencadeou outras experiências – umas bem-sucedidas, outras nem tanto – abrindo, assim, a porta para a revolução da medicina “sem dor”.
Dois séculos depois, com as sequentes descobertas científicas e os recursos tecnológicos de ponta, chegamos a uma medicina com inovações sem precedentes. Temos hoje disponíveis anestesias para cirurgias complexas e de grande porte; para procedimentos mais simples, em que o paciente pode permanecer acordado; para bloquear a dor em pequenas regiões; e até sedações que apenas relaxam para procedimentos como a endoscopia.
Graças a cada uma delas, tem sido possível evitar o sofrimento e assegurar o bem-estar, o relaxamento e o conforto do paciente nas cirurgias. Para o médico, tem permitido operar com mais eficiência e segurança. Mas, apesar da sua relevância em todos os procedimentos cirúrgicos e em muitos exames, ainda é grande o desconhecimento da sociedade sobre essa importante especialidade médica.
Poucos sabem, por exemplo, que, conforme resolução do Conselho Federal de Medicina, antes de uma cirurgia, todos têm direito a uma consulta pré-anestésica. Ela é essencial, pois permite ao médico saber mais sobre o paciente, incluindo eventuais problemas de saúde, uso de álcool, drogas e outros dados necessários ao bom procedimento anestésico, e ainda contribui para reduzir a ansiedade do paciente e esclarecer suas dúvidas.
Falta conhecimento, também, sobre a real função do anestesiologista na equipe de cirurgia e que vai além da aplicação da droga, incluindo controlar o estado geral do paciente, antes, durante e logo após a operação.
Conhecer e valorizar o papel desse profissional, especializado em cuidar dos pacientes enquanto estes dormem, é fundamental para garantir que a especialidade continue evoluindo e todos possamos viver melhor e sem dor.
Erick Freitas Curi é presidente da Sociedade Brasileira de Anestesiologia