- Vitória, ES 24°C

Vitória 24°C

Anúncio
Tribuna Livre

Encolheram o Judas

“Me deixa de fora desse seu mau sentimento...” Gilmar Mendes vira o Judas da vez. E a partidarização nas associações de moradores blinda os locais na ...

Última atualização

“Me deixa de fora desse seu mau sentimento…” Gilmar Mendes vira o Judas da vez. E a partidarização nas associações de moradores blinda os locais na malhação de Aleluia

Nesta Aleluia ninguém vai poder reclamar da falta de Judas para malhar. Há uma inflação deles no mercado, mas encolheram a representação local do traidor bíblico. Nessa manifestação típica de rua no sábado de Aleluia, organizadores vão cada vez mais longe buscar um Judas, em muitos casos pelo excesso de partidarização das associações de moradores comprometidas com lideranças locais e aspirantes a cargos políticos. Então, para não melindrar nem comprometer interesses paroquiais – empregos, pequenos favores, apadrinhamento etc. –, a saída é “importar” um Judas.

É menos desgastante e comprometedor malhar o “Judas da vez”, no caso, o ministro do STF Gilmar Mendes, o grande favorito. Este, por sua vez, viu seu oponente, Luiz Roberto Barroso, virar autor de um desabafo que se tornou meme: “Me deixa de fora desse seu mau sentimento, você é uma pessoa horrível, mistura de mal com atraso e pitadas de psicopatia”. Aliás, a primeira frase “Me deixa de fora do seu mau sentimento”, parece apropriada para colóquios entre rivais, título de romance, filme, documentário ou coisa do gênero versando sobre a nossa realidade distópica.

Há também outros Judas que podem ser importados, como Putin, Trump, aquele ditador da Coreia do Norte e o nosso Temer, o mais impopular dos últimos presidentes, e que agora diz que vai ser candidato à reeleição para não morrer politicamente de véspera. Temer, com fama de vampiro, parece entender bem dessa coisa de imortalidade. E não faltam os Bolsonaros, petistas, tucanos e até aquele pato da Fiesp associado à elite empresarial conhecida como vanguarda do atraso.   

Nos últimos tempos, ainda como forma de blindagem pessoal, lideranças comunitárias passaram a despersonalizar o Judas. Não precisa estar necessariamente associado a alguma figura, mas a certas ações consideradas inadequadas. Um exemplo recente foi a Linha Verde implantada pela municipalidade na orla de Camburi, a título de melhorar a mobilidade urbana e facilitar o transporte coletivo. Como não deu muito certo, por uma série de motivos que rendem polêmica a perder de vista, a Linha Verde amarelou, virou um mico saltitante e, portanto, séria candidata a “Judas”.

Se isso for adiante vai sobrar também para o pó preto de minério, a sauna móvel dos ônibus, as obras que levam eternidade para serem concluídas. A propósito, após 15 anos, o novo aeroporto de Vitória começa a decolar deixando para trás sua condição de aspirante número um no quesito obra inacabada candidata a ”Judas”. Vai sobrar para a interminável reforma da Avenida Leitão da Silva, o Cais das Artes…

No fundo, no fundo, tudo o que as pessoas querem é liberdade para escolher um Judas sem interferência política e eufemismo. Nada de blindagem e escapismo. E que o Judas seja, de preferência, relativamente familiar, ainda que nefasto. Judas bom para malhar é o Judas mais próximo. Afinal, o original esteve o tempo todo ao lado de Cristo, partilhou com ele do pão e do vinho, e depois fez o que fez. Judas importado ou despersonalizado, não empolga. Só ajuda a esvaziar uma tradição que vai se perdendo nos arranjos dos homens, suas conveniências, e nas brumas do tempo.

Mais Lidas

Ver tudo ›

    Bem-vindo(a) ao
    Tribuna Online!

    Seu bloqueador de anúncios está ativo.

    A publicidade ajuda a manter nosso jornalismo. Libere os anúncios para apoiar o Tribuna Online.

    Obrigado por apoiar o jornalismo local.