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O rei e o velho bandido

“Chupa, Roberto Carlos, nós também temos orquestra!”. O grito ecoou da plateia durante o 12º Festival Sérgio Sampaio, mostrando que, de alguma forma, ...

Jornalista, músico e colaborador do Tribuna Online

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“Chupa, Roberto Carlos, nós também temos orquestra!”. O grito ecoou da plateia durante o 12º Festival Sérgio Sampaio, mostrando que, de alguma forma, o acaso juntou em Vitória, numa mesma noite, dois talentos cachoeirenses antípodas. Enquanto a Orquestra Sinfônica do Estado embalava com requinte as canções de Sampaio no palco do Teatro Sesc/Gloria, o “rei” encantava seus súditos na Arena Vitória escorado por grande orquestra e coral. De um lado, a arte de um compositor engajado e socialmente atento, do outro as canções pacifistas e românticas de um artista que se tornou conservador após a rebeldia juvenil sem causa da Jovem Guarda.

Aproximados geograficamente, os dois sempre estiveram distantes. Sampaio nutria por Roberto um sentimento que misturava admiração e decepção, fosse por questões políticas e mercadológicas. Já o “rei” nunca demonstrou maior interesse em tê-lo em sua corte, ainda que, curiosamente, Sampaio tenha se tornado amigo do seu maior parceiro, Erasmo Carlos. Inclusive, foi o próprio Erasmo quem deu a Sampaio o mote para compor ”Eu quero é botar meu bloco na rua”, em 1972, um ano politicamente conturbado, muita repressão e censura.  

A partir dali, enquanto Roberto cantava que queria ter um milhão de amigos, Sampaio compunha ”Meu pobre blues” falando justamente da dificuldade de escrever uma canção que agradasse ao “rei” e por ele fosse gravada. “Eu não preciso de sucesso, só queria ouvi-lo cantar meu pobre blues, e nada mais”, confessa na letra. O restante é história razoavelmente conhecida: Roberto, midiático, seguiu vendendo milhões de discos e fazendo grandes shows.

Sampaio decolou sua carreira até estancar por motivos diversos, como a não adaptação às regras do mercado e o gênio difícil. Acabou sendo rotulado de “maldito”, um termo injusto para um sujeito sensível e rebelde por natureza. Outro músico capixaba famoso, Roberto Menescal, que era produtor fonográfico na década de 1970, resumiu o sentimento do showbusiness: “Quero as canções do Sérgio Sampaio, mas ele não”. Iconoclasta, Sampaio parece ter dado de ombros e compôs outra canção confessional, “Velho bandido” (Eu que sou filho de um Sampaio teimoso, descobri maravilhado que sou mentiroso, feio, desidratado…). E prosseguiu, entre altos e baixos, vida afora.

De volta ao futuro, o grito que ecoou na plateia do Gloria, no último sábado, simbolizou uma conquista para uma obra por muito tempo restrita a guetos e eventos alternativos. Para se ter uma ideia, o primeiro Festival Sérgio Sampaio, capitaneado pelo incansável Gilson Soares, foi realizado no Bar do Pantera, em Campo Grande, Cariacica. E sabe-se lá onde isso fica? Sem nenhum patrocínio, no improviso, tudo na base da vontade e da ação entre amigos e admiradores. O próprio Sampaio, em vida, cansou de se apresentar em lugares inadequados, obscuros, sem acústica, às vezes com músicos catados a laço. Numa ocasião, recebeu convite para se apresentar em Cachoeiro. Lá foi ele todo feliz tocar e cantar para os conterrâneos até que deu de cara com o local programado para o show, uma barulhenta pizzaria.

Agora, quanta diferença ouvir suas canções melodiosas embaladas por uma grande orquestra, num teatro lotado e público reverente. O duo violão Zébedeu e diversos intérpretes capixabas deram voz às canções do bardo cachoeirense, falecido em 1994, aos 47 anos. Poucos o conheceram em vida, mas se identificam com sua obra de resistência, que vai ganhando progressão e se mostra atual. Um lance: após a apresentação de “O pavio do destino” (O bandido e o mocinho são os dois do mesmo ninho, correm nos estreitos trilhos, lá no Morro dos Aflitos…), Marielle também se fez presente nos gritos da plateia. O final, tão presumível quanto inevitável, foi todo mundo entoando a catártica “Eu quero é botar meu bloco na rua”, igualmente apropriada para os dias estranhos que vivemos.

A “sampaiada” promete mais barulho para o futuro. Cogita-se para a próxima edição do festival a montagem de uma réplica do Bar do Auzílio, que Sérgio frequentava em Cachoeiro, e há três documentários sobre ele em produção, todos enfrentando falta de patrocínio. Sabe como é: em tempos de crise, cultura vira descartável. E há ainda o estigma que envolve a produção sobre autores do chamado bloco de resistência. Quanto ao rei… Bem, Roberto Carlos vem por aí com superprodução milionária num filme sobre sua vida. 

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