Ouvia desde criança o provérbio: “Você só conhece uma pessoa quando come um quilo de sal com ela”. Fato! Mas a que se deve esta expressão? Em sua obra “Livro sem fim”, o educador Rubem Alves nos brinda com uma metáfora sobre a relação entre as palavras e os alimentos.
Por meio do exemplo extraído de textos de escritores diversos e dos famosos quadros de Giuseppi Arcimboldo, R. Alves constrói sua argumentação de que o saber pode e deve ter sabor. Em um determinado momento da narrativa, o autor dispara: “Escrevo como quem cozinha”. A verdade nua e crua é única: a essência do conhecer está no saborear.
Propositalmente, ou não, o provérbio enfatiza a necessidade de comer sal. Os entendedores dirão que comer sal puro não seja nada agradável. Por outra vertente, o sal dá sabor. Em tempos de sociedade líquida, relacionamentos efêmeros e intimidades oriundas de uma “troca de mensagens”, urge a necessidade de questionar e aprofundar a sistemática da verdadeira intimidade.
Ouso aqui debruçar sobre um exemplo configurado na vida de Jesus de Nazaré. Quando Ele queria explicar a essência das coisas para o seu grupo de discípulos, ele revelava em casa. Ou seja, na intimidade, no local onde o saber tinha também o sabor, onde a palavra era dita com olhar e “cuore” (coração).
Para haver compreensão verdadeira, é preciso por vezes experimentar aquilo que o discurso dilui em nossos ouvidos. Confúcio, filósofo chinês, já dizia que “Todos os homens se nutrem, mas poucos sabem distinguir os sabores”. Às vezes, “comemos” de tudo, mas por não experimentarmos, por não apreciarmos, corremos o risco de não identificar o sabor.
Neste sentido, vale questionar: até que ponto saber demais é mais enriquecedor do que saborear tudo que aprendemos? Vivemos e somos obrigados a conviver com um fenômeno chamado excesso de informação. Por todos os lados nos defrontamos com elementos.
O excesso de informação está acendendo uma angústia típica dos tempos atuais e levando à conclusão de que, às vezes, saber demais é um problema.
Nas sociedades ocidentais, as pessoas se sentem pisando em um chão não muito firme, por não conseguirem engolir a carga de informações — na imprensa, na televisão e na internet.
Quanto mais sabemos, menos seguros nos sentimos. O sentimento é que o mundo está girando a muitas rotações a mais do que nós mesmos, dizem especialistas e catedráticos.
Aqui vale um alerta: o excesso de informação surge na era digital. Não podemos abraçar uma verdade que não é absoluta. Face a isto, estamos intimados a conviver até com a era do fake news, ou seja, a era da disseminação da notícia falsa, sem ser degustada, apreciada e vasculhada.
Na era atual, onde a tecnologia e as redes sociais estão inseridas em todos os aspectos do nosso cotidiano, a propagação de conteúdos na rede é acelerada e, em sua grande maioria, as informações possuem falta de fundamentação e veracidade, sendo replicadas inúmeras vezes, transformando mentiras em verdades, prejudicando a profusão da informação e do conhecimento.
“Com o engodo de uma mentira, pesca-se uma carpa de verdade”, disse William Shakespeare.
Rubem Alves escrevia (ou transferia o saber) como cozinheiro, ou seja, antes ele experimentava. Um bom cozinheiro, não só cozinha para servir, mas tempera experimentando para que aquele que vai se nutrir carregue consigo o bom sabor.
“Saber acontece na cabeça. Sabor acontece na língua. Sabor tem a ver com sábio. A vida precisa ser degustada. Escolas precisam transferir o saber do sabor. É preciso que degustemos mais a vida”, de Rubem Alves, em “A vida precisa de saber, mas de sabor!”.
Vinícius Figueira é publicitário