Passadas as férias, findo o Carnaval, a agenda do ano novo entra de vez no cotidiano de 2019. Assim, temos como que um replay da questão que sempre marca as viradas: o que faremos do ano que se inicia? A pergunta se crava outra vez, mas ela é apenas uma versão daquela indagação que nos martela a cabeça diuturnamente: qual o sentido da vida?
“O homem nada é além do que ele se faz”, escreveu Sartre, que salienta nossa condenação à liberdade: “condenado, pois o homem não se criou a si mesmo, e, por outro lado, contudo, é livre, já que, uma vez lançado no mundo, é o responsável por tudo que faz”.
Considerando que “o homem é o futuro do homem”, o sentido da vida seria exatamente dar um significado à existência sob o Sol, originalmente sem propósito prescrito. “Antes de começarmos a viver, a vida, em si, não é nada, mas nos cabe dar-lhe sentido, e o valor da vida não é outra coisa senão este sentido que escolhemos.”
Sigamos com Freud, para quem “a vida, tal como a encontramos, é árdua demais”, tendo em vista habitarmos um corpo que envelhece, adoece e morre, vivermos em meio ambiente natural incontrolável e por vezes mortalmente hostil e, ainda por cima, lidarmos, como espécie, com as ameaças advindas de relações travadas entre seres estruturalmente agressivos.
Mesmo diante do fracasso de se constituir uma vida sempre feliz, Freud afirma que os homens “esforçam-se para obter felicidade; querem ser felizes e assim permanecer”. Buscamos, “por uma lado, uma ausência de sofrimento e de desprazer; por outro, a experiência de intensos sentimentos de prazer”. Mas, como vimos, há um mundo agindo contra esse “princípio do prazer”, inclusive nós mesmos, com nossas próprias sabotagens e intermináveis repetições masoquistas e vícios dilacerantes.
Como saída para a invenção da vida com algum bem-estar, Freud recomenda, por meio da ciência, sujeitar a natureza à vontade humana; ajuntarmo-nos em comunidades devotadas para o bem de todos; e conhecermo-nos, pois, “em última análise, todo sofrimento nada mais é do que sensação; só existe na medida em que o sentimos, e só o sentimos como consequência de certos modos pelos quais nosso organismo está regulado”.
Afirmando que não existe uma regra de ouro que valha para todos, Freud diz que há caminhos “que podem levar à felicidade possível de ser atingida pelos homens, mas nenhum que o faça com segurança. Mesmo a religião não consegue manter sua promessa”, uma vez que submete os fiéis a “desígnios inescrutáveis” da divindade.
Viktor Frankl, sobrevivente de campos de concentração nazistas, tornou-se referência na discussão sobre o sentido da vida, cuja busca seria a “motivação primária” de todos. Para ele, não se deve perguntar o que esperar da vida, mas o que a vida espera de nós. “Viver não significa outra coisa senão arcar com a responsabilidade de responder adequadamente às perguntas da vida, pelo cumprimento das tarefas colocadas pela vida a cada indivíduo, pelo cumprimento da exigência do momento.”
E diante da dor, muitas vezes inescapável? O sentido, responde, está em “mudarmos a nós próprios”. Não para nos ajustarmos ao sofrimento, mas para superá-lo com dignidade e, talvez, ajudarmos a transformar a dolorosa cena que nos rodeia e nos fere. Um ano de muita coragem íntima, descobertas e reinvenções para você!
José Antonio Martinuzzo doutor em Comunicação, pós-doutor em Mídia e Cotidiano, professor na Ufes, membro da Escola Lacaniana de Psicanálise de Vitória