
Sensibilizado com o dia a dia diferente e triste, Alves iniciou o projeto “Insulae”, captando imagens que contam uma história profunda sobre uma das maiores crises de saúde que a sociedade global já enfrentou. No Amazonas já são cerca de 119 mil pessoas infectadas e mais de 3.600 mortes.

Em entrevista ao Tribuna Online, Alves contou que trabalha como analista judiciário na área de fotografia do Tribuna de Justiça do Amazonas, mas também atua como correspondente do jornal The Washington Post e da agência agência EFE (espanhola).
Por causa da pandemia, o Tribunal de Justiça determinou que trabalhasse home office e as fotos começaram dentro de casa mesmo.
Com isso, começou a fotografar quando tinha oportunidade de sair de casa para ir ao supermercado, farmácia ou a alguma pauta jornalística. Para onde vai, ele leva a câmera.
“Tem sido um trabalho de fora para dentro em muitos sentidos. Começou durante o distanciamento social e seguiu para a situação em que, infelizmente, estamos. Eu colaboro com agências e periódicos e, fora de casa, aproveitei a cobertura que estava fazendo para eles. No período em casa, estava fotografando a sensação de estar distante, de estar isolado. Eu sou claustrofóbico e não foi fácil no início. Mas depois vieram as coberturas e vi que a angústia do lado de fora é ainda maior”, contou o fotógrafo.
Alves relembrou que tudo começou no dia 13 de março, quando fez as primeiras fotos da pandemia.
“Minha mulher teve que ir ao hospital fazer uma pequena cirurgia e, ao chegarmos, nos deparamos com tudo modificado, as equipes do hospital com EPIs diferentes, quartos com placas de isolamento e tudo aquilo surpreendeu a gente. Ficamos com medo porque não tínhamos noção do que iríamos enfrentar. Uns dias depois, determinaram que eu trabalhasse em home office. Eu cheguei a fotografar o Tribunal vazio, as salas fechadas, etc. Mas ainda sem saber o que viria”, disse.
“Nem coloco legendas porque não sei o que dizer”
Cobrindo a pandemia diariamente, o profissional destacou que o trabalho provoca uma mistura de sentimentos e isso é visto nas pessoas que acompanham cada publicação que faz nas suas redes sociais.

Ele ainda completa: “Eu estou fotografando as perguntas que faço a mim mesmo e as sensações em busca de um sentido nisso tudo. Eu ainda estou sentindo, refletindo. Essas fotos representam o meu sentimento sobre tudo isso. Minha ansiedade, meus temores, minhas preocupações. O que eu faço é somente convidar as pessoas a partilhar comigo”.
Treinamento para evitar contágio
Antes de iniciar a cobertura, Raphael Alves participou de um treinamento para jornalistas em área de contágio e aprendeu a usar todos equipamentos de Equipamentos de Proteção Individual (EPIs).
Com uma câmera na mão, uma pauta na cabeça e munido de máscara, álcool em gel e EPIs, ele procura ser os olhos do leitor nas ruas.
Já são mais de 500 fotos tiradas com sua câmera Canon 6d Mark II. Algumas ele compartilhou em seu Instagram e em sites especializados de fotografia, que também têm recebido projetos sobre a rotina das cidades do mundo inteiro durante a pandemia de coronavírus.

Raphael relembra uma situação que o comoveu: “Uma cena que me chamou atenção foi quando fomos na casa de uma senhora que era a mãe da médica socorrista. Ela não precisou ser entubada, mas recebeu medicação. A filha, médica, com os outros socorristas, fez os procedimentos”.
“Já chorei muito”
A segunda imagem que também chamou atenção do fotojornalista foi o dia em que acompanhou um chamado da equipe do Samu. Ele ele confessa: chorou muito.
“Já chorei muito! Durante uma cobertura, o Samu foi até a casa de um paciente com covid que faleceu durante o atendimento. Eu estava do lado de fora da casa com os familiares e, quando a médica chegou para dar a notícia, foi devastador presenciar a dor daquela família. A perda deles era como se fosse a minha perda. Uma dor muito grande. Não tem como não se emocionar. Ao chegar em casa, nem eu e nem minha mulher, que é psicóloga, conversamos muito. Ela também havia tido um dia puxado. Quando ela foi deitar, fui para área de serviço e chorei. É triste demais!”, lamentou.

Somente chegou perto do caixão as pessoas que usavam os EPIs. De forma clara, as fotos mostram o sofrimento da família em não poder ver, pela última vez, o parente.
“Eu fotografo da maneira que vejo as coisas. A escolha pelo preto e branco foi intuitiva. O que vejo e o que expressa para mim nesse momento é o que eu tenho fotografado. Algo me diz que essas imagens fazem mais sentindo assim”, disse.

“É um desafio! Além de toda a tristeza, tem o medo da contaminação, pois entro em UTIs. É pesado ver tantas pessoas entubadas… Lidamos com um mal que não vemos, mas ao mesmo tempo sinto o dever de registrar, capturar toda essa situação. Eu estou fazendo isso porque acredito que a gente só pode mudar isso com informação. É preciso mostrar o que está acontecendo, os problemas que estamos enfrentando”, afirmou o fotojornalista.
O projeto “Insulae”
Sobre a série chamada de “Insulae”, Raphael Alves explica que é um termo em latim que deu origem a “isola”, em italiano, “isla” em espanhol e “ilha” em português. Todas remetem à grande palavra vivenciada durante a crise do novo coronavírus: isolamento.
“Insulae tem como objetivo ser um projeto de retrato histórico de um cenário mundial dentro de uma realidade brasileira”, explicou o fotojornalista.
Raphael foi convidado pela microeditora Artisan Raw Books, para lançar uma publicação com fotos do trabalho realizado sobre o período da pandemia em formato de Zine. A editora publicou e lançou 30 volumes.
“Não esperava que iria conseguir vender tão rápido! Foi uma edição limitada. Direcionei toda a renda dos Zines para apoiar a causa da Associação das Mulheres Indígenas Sateré-Mawé (AMISM), que fica em Manaus. Essa comunidade sofreu com a pandemia e alguns deles adoecerem. Como vivem do artesanato, não conseguiam mais clientes. Por isso, decidiram produzir máscaras. Primeiramente, fizeram para a própria comunidade e depois passaram a doar para outros povos indígenas. Até que passaram a receber encomendas e estão se mantendo com essa produção”, contou o fotógrafo.
Quem é Raphael Alves
- Raphael Alves nasceu em Manaus e tem 37 anos. Exerce a profissão de fotojornalista há 20 anos. Atualmente é Analista Judiciário na área de fotografia do Tribunal de Justiça do Amazonas.
- É correspondente no jornal The Washington Post e na agência agência EFE (espanhola). É membro do Everyday Brasil, projeto para documentar o cotidiano do país por meio da fotografia e colaborador do Everyday Amazon.
- As fotos são divulgadas no perfil de Raphael Alves: @photoraphaelalves










