“Ela foi levada por parentes a conhecer uma dessas cidades comuns, de pobreza exposta, periferia pesada, pedintes nas ruas. Ficou chocada, nunca vira aquilo, pois nada sabia do mundo banal e cruel fora do seu bairro. Tipo assim Sidarta Gautama, o Buda, após se estarrecer com o mundo fora dos muros do Palácio em que vivia”
Quem sobe a Serra de Carajás, onde a Vale mantém complexo mineralógico, no Pará, se vê cercado de densa mata até o instante em que a floresta abre num clarão, e não se trata de nenhuma queimada. Surge plena uma avenida bem urbanizada e iluminada, que conduz a uma dessas cidadezinhas de sonhos: casas avarandadas espalhadas entre jardins, nada de muros, amplas e iguais.
O lugar, mesmo com a mata ao redor, exala urbanidade. As ruas calmas, comércio centralizado, escolas, áreas de lazer, e parques compõem o retrato de um lugar seguro e com tudo para deixar felizes os habitantes, empregados da mineradora, em sua maioria. Mas a felicidade não se compra. Nem sempre bom emprego, dinheiro e lugar seguro trazem felicidade plena.
De um habitante de lá, com certo ar de enfado, ouvi que o cotidiano sem surpresas e, principalmente, sempre as mesmas pessoas, mesmas conversas e os mesmos lugares acabavam transformando encontros e festas em celebração previsível, chata. “A gente fica aqui torcendo para que apareça um novo casal, alguma pessoa diferente para renovar o repertório”, contou. Ou então era aguardar em ansiosa contagem regressiva o período das férias, para trinta dias de um banho de civilização fora daquela bolha no meio da selva.
Uma segunda bolha, bem mais próxima, é o bairro Coqueiral de Aracruz, construído num altiplano com vista para o mar, habitado por funcionários graduados da indústria de celulose – já foi Aracruz e Fíbria, hoje pertencente ao grupo Suzano. Projetado numa simetria de casas ajardinadas e espaçosas, também sem muros, mas com vigilância e segurança, o bairro é pleno de parques, escolas e áreas de lazer.
E o Clube da Orla, com suas piscinas e amplo salão de festas, um ponto de encontro obrigatório. Tudo faz lembrar uma dessas bucólicas cidades do interior de lugares prósperos. Ainda que o atual padrão sócio-econômico do bairro já não seja o mesmo. De um morador de Coqueiral, a quem elogiei o privilégio de morar num lugar daqueles, ouvi algo parecido com o que escutei na bolha da selva: sempre as mesmas pessoas e lugares tornavam tudo muito previsível.
“Mas ao mesmo tempo, a convivência intensa cria laços permanentes pela vida afora”, citou. E narrou o caso de uma vizinha até hoje sua amiga, que ali fora criada desde pequena. Um dia, já mocinha, ela foi levada por parentes a conhecer uma dessas cidades comuns, de pobreza exposta, periferia pesada, pedintes nas ruas e sinais. Ficou chocada, nunca vira aquilo, pois nada sabia do mundo banal e cruel fora do seu bairro.
Tipo assim Sidarta Gautama, o Buda, após se estarrecer com o mundo fora dos muros do Palácio em que vivia, e ter contato com a miséria, doença, velhice e morte. A mocinha não chegou a ter nenhuma atitude radical, como Buda, que raspou a cabeça, vestiu uma túnica de mendigo e saiu jejuando pelas ruas do Nepal e da índia em busca da iluminação. Já a mocinha de Coqueiral, pés no chão e sem nenhuma pretensão mística, tratou de observar e estudar mais, para melhor encarar o mundo real. Hoje, casada e morando em ampla urbe, não esconde a saudade do tempo em que era feliz e sabia. Só desconhecia os perigos ao redor da bolha em que vivia.
