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Luiz Trevisan

Além do altar

“Quantas vocações desvirtuadas por causa da exigência da castidade? Agora o Papa Francisco cogita permitir padres casados em regiões remotas como a ...

Papa Francisco falou sobre o massacre nesta sexta-feira

Última atualização

Papa Francisco (Foto: Matt Campbell/Lusa)

“Quantas vocações desvirtuadas por causa da exigência da castidade? Agora o Papa Francisco cogita permitir padres casados em regiões remotas como a Amazônia”

A trajetória de dois padres que durante anos, décadas atrás, comandaram uma igreja no Sul do Espírito Santo, resume o que há além do altar e da percepção de muitos fiéis. Um desses padres, que já tinha fama de “namorador de beatas”, não fugiu ao que parecia ser seu destino: após muitas pregações e celebrações largou a batina, casou – dizem que com uma das beatas assíduas – e foi cuidar da família, viver a vida além do altar.

O outro padre, afrodescendente de ar intelectual, não somente pelos óculos, mas pela fala e gestos polidos, seguiu caminho diferente, mas também além do altar. Acabou internado numa clínica para recuperação de alcoólatras. Provavelmente, o ponto de partida não foi somente aquele fervoroso cálice de vinho durante a missa. Para os dois padres, o desfecho poderia ser outro, após tanto estudo e reflexão sobre uma vocação lapidada anos a fio em seminários, no claustro, na penitência e sublimação. Tanto o celibato quanto o tipo de vida nas dioceses têm a ver com os dois casos. E muitos outros.

De acordo com o “Movimento Nacional das Famílias de Padres Casados”, de cada quatro padres ordenados no Brasil, um deles larga a batina para formar família. E isso não quer dizer que na vida real os outros três sejam celibatários. Quanta cortina de incenso para encobrir casos de assédio e pedofilia ao longo da história dos sacerdotes católicos? E quantas vocações perdidas ou desvirtuadas por causa da exigência da castidade? Agora o Papa Francisco cogita permitir padres casados em regiões remotas como a Amazônia.

Em outubro próximo, bispos de todo mundo estarão reunidos para discutir a Amazônia. Na pauta, que abrange da saúde à corrupção na floresta, há dois temas em destaque: a escolha de líderes locais, inclusive casados, para celebrar a eucaristia, papel hoje exclusivo dos sacerdotes, mas esses encontram dificuldades de deslocamento nas comunidades distantes. Também estará na pauta o papel da mulher na Igreja. Cogita-se permitir à mulher atuar na catequese católica. Como pano de fundo, naquela região há uma alarmante perda de fiéis para as igrejas evangélicas.

Seria esse o início do fim do celibato? Ao que tudo indica, ainda não. O Papa Francisco já se posicionou contrário ao fim do celibato, embora admita flexibilizar isso devido à necessidade pastoral em regiões distantes. Ou seja, há uma força maior se sobrepondo ao celibato clerical. Até o Século XII, o celibato não era exigido dos sacerdotes católicos. E mesmo após sua obrigatoriedade, isso não ocorreu de modo uniforme.

No Brasil colonial, por exemplo, há muitos registros de padres que se casaram e tiveram filhos à margem da lei eclesiástica. Alguns analistas apontam que a Igreja endureceu na exigência do celibato não somente por considerar que isso torna o sacerdote “melhor e mais comprometido com suas funções”, mas também para evitar desfazer ou partilhar feudos com os filhos dos padres. Até meados do século passado, formar um filho padre era sonho de consumo de sete em dez famílias de descendentes italianos. Uns por atávico fervor religioso, outros para garantir a um dos filhos estudo e uma vida fora do mundo competitivo que existe aqui na raia miúda.

Em muitos casos, a “vocação” do filho ficava pelo caminho, principalmente quando evoluía na adolescência e descobria que sexo dos anjos era outra coisa. Os que seguiam no seminário até o fim se dividiam, basicamente, em três categorias: os que realmente tinham vocação, aqueles que não queriam sair daquele ambiente socialmente protetor ou se identificavam com o ambiente homossocial.

Atualmente há todo um complexo contexto político ainda a ser considerado. Em seu novo livro “A Solidão de Francisco”, o renomado vaticanista Marco Politi aponta um paradoxo: “Francisco conta com um consenso muito grande a seu favor entre pessoas de todas as religiões. Porém, ao mesmo tempo, dentro da Igreja, não há tantas pessoas engajadas em apoiá-lo. Ele enfrenta não só adversários, mas uma grande passividade”.

Além do bloco que aposta na inércia, sabota e empurra com a barriga a agenda reformista, o Papa vive momento de geopolítica desfavorável diante do nacionalismo e populismo em alta em países como Estados Unidos, Brasil, na própria Itália. O declarado apoio do papa aos imigrantes reduziu sua aprovação na Itália de 88%, em 2014, para 72%, em 2018, segundo pesquisas de opinião. Num mundo povoado de extremos interesses não tem reforma fácil. Nem reforma de casa, muito menos da Previdência Social, que está aí para comprovar o tamanho do rolo.
 

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