“Pra gente que está aqui constrangida, torrando neste verão tropical, significa que a felicidade é um lugar frio, distante e sem barragens no horizonte”.
Sobrou até para o “síndico” Tim Maia. Já como impacto indireto da lama resultante da tragédia em Brumadinho, foi suspensa uma apresentação musical em homenagem ao cantor Tim Maia, programada para este final de semana, na orla capixaba, que teria o patrocínio da Vale. A coisa não deve parar por aí: mais eventos culturais e esportivos poderão sofrer cortes diante da nova realidade de crise vivida pela empresa.
Qual o futuro da Orquestra e Coral da Vale, do Museu Ferroviário em Paul (Vila Velha), da Estação Conhecimento próxima à Cidade Continental, na Serra, e tantos outros? Eis aí uma grande incógnita. Vale ainda observar o silêncio ruidoso em relação a Brumadinho por parte de artistas e personalidades habitualmente patrocinados pela mineradora. Detalhe: se a Vale limitar seu apoio às leis de incentivo cultural, muita gente vai precisar enfiar a viola no saco.
Enquanto isso, parte da mídia glamoriza a notícia em meio à enorme tragédia que nos legou também uma sinistra e cruel estatística dos mortos renovada a cada dia. E longe de acabar. Mas eis o destaque de um portal nacional, dias atrás: “Quem é o bombeiro de 25 anos que informa o País sobre a tragédia de Brumadinho”. Na ficção, há uma colocação correlata em um filme nacional de 2011, de Beto Brant, “Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios”. Num filme dá para entender, numa tragédia é a realidade absurda superando a ficção.
Outro absurdo é constatar que uma empresa que se vangloria da “sustentabilidade” dos seus projetos mantenha barragens jurássicas. Diante do processo de mineração a seco já existente no planeta, utilizar água é criar resíduos difíceis de controlar (vide Mariana, Brumadinho, etc.). Agora a Vale fala em intensificar esse tipo de operação a seco nas minas de Fazendão e Alegria, duas das mais antigas em operação em Minas Gerais. Outra questão é o que fazer com tanta lama já acumulada em barragens mal- executadas e mal-fiscalizadas. Nem sirene toca na hora do rompimento.
E ainda: como acelerar a extração a seco, cujo processo é mais caro e não interessa muito aos investidores. Olhe a composição acionária da Vale: 48,1% de investidores estrangeiros. Ao capital internacional, quanto mais lucro, melhor. Quanto à sustentabilidade apregoada na publicidade e na promoção de eventos, basta lembrar um período recente em que empresas poluidoras patrocinavam todo ano uma “Feira do Verde”, em Vitória, para propagar práticas saudáveis. Soava como deboche, e o pó preto só adensando o ar.
Toda tragédia traz um lado reativo, ao mesmo tempo em que nos faz pensar por que ainda continuamos a só trancar a porta depois de arrombada. O que aprendemos com Mariana? Até hoje tem gente poderosa querendo premiar a Samarco com a reabertura operacional das suas usinas. E agora mesmo há toda uma correria para vitoriar barragens aqui, ali, acolá. É oportuno, necessário, mas infelizmente deve durar enquanto as atenções não forem desviadas para uma nova tragédia ou crise.
Você sabe bem como é viver num mundo volúvel, mercantil e burocratizado. Um empresário tradicional da Serra, do ramo de alimentação, me apresenta um exemplo próximo. “Há mais de um ano tento liberar área de expansão feita na minha indústria. Porém a coisa esbarra em funcionários públicos da base. Estáveis e imexíveis, alguns se sentem no direito de criar dificuldade para vender facilidade”, salienta. Não precisa nem desenhar o mapa dos desvios embutidos neste pacote vicioso.
De resto, com termômetros batendo 40 graus e picos, sobra o consolo de constatar que “a felicidade é um lugar frio”. Ao menos é o que se deduz do relatório da ONU 2018 sobre qualidade de vida. Aponta os 10 países “mais felizes do mundo” levando em conta itens como a educação, média salarial, apoio social, liberdade, expectativa de vida saudável e generosidade. Os sete primeiros são: Finlândia, Noruega, Dinamarca, Islândia, Suíça, Holanda e Canadá. Tudo muito gelo e pouco sol. Pra gente que está aqui constrangida, torrando neste verão tropical, significa que a felicidade é um lugar frio, distante e sem barragens no horizonte.