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Luiz Trevisan

Conversas de elevador

“Se quiser e tiver tempo para esticar um papo reto, pode-se beliscar a filosofia: “Quem foi que disse que a História só se repete como farsa? Pois ...

Última atualização

“Se quiser e tiver tempo para esticar um papo reto, pode-se beliscar a filosofia: “Quem foi que disse que a História só se repete como farsa? Pois olha o Brumadinho aí…”

Cidades e lugares cada vez mais verticalizados e a contínua expansão urbana tiraram de cena a pracinha como ponto de encontro e de conversas triviais. No sobe e desce compartilhado dos edifícios, predominam as conversas de elevador. Geralmente é amena, rápida e repetida, assim como a música de elevador – também conhecida como muzak – com aquele instrumental leve, temas açucarados, sucessos envelopados entre violinos e teclados. E quando não há intimidade, num primeiro estágio a conversa é do tipo cerca Lourenço: “Que calor heim, será que não vai chover?”

Janeiro sempre foi assim calorento, às vezes com chuva, às vezes com muito sol. O que há diferente sob sol de agora são aquelas infernais caixinhas de som se reproduzindo pelas praias feito gremlins dentro da água. Mas se houver maior grau de intimidade entre as pessoas, aquele ruidoso silêncio que se sucede após amenas conjecturas climáticas pode evoluir para alguma leve provocação: “E a renúncia-fuga do Jean Wyllys, hein?”. Ou pede-se opinião sobre o “discurso-twitter” do Bolsonaro, em Davos.

E se já existir maior intimidade, essa conversa pode evoluir para uma elucubração tipo: “Leu A Montanha Mágica”? Todo mundo sabe do livro escrito por Thomas Mann sobre as antigas clínicas para tuberculosos ricos, em Davos, nos Alpes suíços. Porém, essa obra é mais uma daquelas volumosas sempre mais comentadas do que lidas de fato, tipo “Ulysses”, de Joyce, ou “Grandes Sertões: Veredas”, do Guimarães Rosa.

Neste verão, além do clima, há outro tema correlato que vem sendo encaixado nas conversas de elevador: os afogamentos que batem recordes em rios, mar e lagoas, quase um por dia desde 15 de dezembro último. Buracos no mar, normalmente onde as ondas quebram, são velhas armadilhas mal-sinalizadas. É perigo não somente para mineiro que não sabe nadar. Ainda que haja certa redundância dizer que mineiro não sabe nadar.

Aqui entre nós, um parêntese nesta estatística sinistra alimentada bastante pelo descaso público. Então, o cara mora numa ilha, ou na beira de lago, rio, e não ensina o filho a nadar? No interior, todos sabem que rios são traiçoeiros, embutem correntezas, locas de pedras, redemoinhos fatais. Vai dar mole ali? Outra armadilha: foz de rio. Nunca tente atravessar leito de rio numa foz, por mais que pareça manso e fácil.

Numa esticada entre as falésias do trecho que liga Trancoso e Arraial da Ajuda, no litoral da Bahia, aprendi essa lição anos atrás e não custa repeti-la: você vê pela frente uma foz de rio “manso”, de uns dez metros de largura, e cai nele pensando que é mole. Nunca é. Ali pelo meio da travessia, a correnteza puxa você e o prende no mesmo lugar. Para sair dali, só nadando por baixo, bem no fundo: respira, desce, nada e sobe, respira, desce e vai. Há ainda outras armadilhas mortais, como o limo das pedras que derrubam fazedores de selfies e incautos à beira das cachoeiras ou junto ao mar.

Nem tudo é estatística sinistra para as conversas instantâneas em qualquer estágio do sobe e desce compartilhado. Nesta altura da estação, nosso litoral se revela quase caribenho, o que dá um bom assunto ameno. Ainda que em todo “mar caribenho” exista riscos. Se no Mar do Caribe pulsa a natureza exuberante em meio a temporadas de furacões e renitentes piratas, por aqui, no nosso mar “quase caribenho”, sabemos bem quem provoca furacão. Igualmente, os piratas são velhos conhecidos. E colocar salva-vidas nos bancos dos réus já não convence.

Após o sobe e desce e uma paradinha, abre e fecha porta, reativa-se o celular que a vida segue a 40 graus e não poupa ninguém. Não à toa, em Cachoeiro assaltos às soverterias viraram mania. Eis aí outro assunto para quebrar silêncio no elevador e para não ficar somente no bordão: “Que calor, heim, será que não vai chover?” Mas se quiser, e tiver tempo para esticar um papo reto, pode-se beliscar a filosofia: “Quem foi que disse que a História só se repete como farsa? Pois olha o Brumadinho aí…”
 

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