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Luiz Trevisan

Conversas longe da catedral

Nos últimos dias, o sarau celestial foi reforçado por duas vozes marcantes que encantaram multidões do planeta: Angela Maria e Charles Aznavour. Aqui ...

Última atualização

A sensação é de que iremos votar na eleição presidencial como quem caminha à beira de um vulcão que ruge

Nos últimos dias, o sarau celestial foi reforçado por duas vozes marcantes que encantaram multidões do planeta: Angela Maria e Charles Aznavour. Aqui no chão, quem canta seus males espanta, diz o ditado, pena que no dia a dia nem sempre é assim. O que dizer das ”cartas” de amor entre Trump e o ditador norte-coreano ou do acirramento da eleição brasileira entre dois extremos, enquanto esfarela o bloco do centrão, e que tanto abalo provocava nas bolsas de valores. 

Provocava, vale repetir, pois agora o grande capital que controla o mercado bolsonariou de vez, basta verificar que a bolsa de valores registrou sua maior alta em dois anos.

Ser ou não fake, eis outra questão latente da campanha eleitoral invadindo nosso cotidiano. Ser ou não de direita, esquerda, moderado ou outra vertente se espelha na escolha dos candidatos presidenciáveis. Só não dá para entender por que tanto eleitor de Bolsonaro foi assistir ao show do MPB-4, Ivan Lins e Toquinho, artistas historicamente engajados contra a ditadura militar.

A certa altura da concorrida apresentação desses músicos, na área de eventos de um shopping de Vila Velha, parte da plateia, embalada por canções engajadas como “Cálice”, “Apesar de Você” e “Roda Viva”, repercutiu o mote das passeatas de mulheres contrárias ao capitão: “Ele Não”. Em seguida, eleitores de Bolsonaro começaram a gritar “Mito”. Ainda bem que Ivan Lins, no palco, puxou seu oportuno sucesso “Somos todos iguais nesta noite” quebrando aquele clima de confronto.

O acirramento visto naquele momento do show se reproduz diariamente nas redes sociais: amigos se destratam ou evitam-se, familiares batem boca, grupos se agridem, estranhos se aproximam. E a extrema-direita, envergonhada de outrora, surge assumida, botando a cara na rua. Ainda bem que até aqui essas manifestações entre os dois extremos segue pacífica, conforme exaltou o jornalista Zuenir Ventura.

Mas de onde e quando surgiu esse sentimento de se resolver a complexa questão social brasileira com tiro, porrada e bomba? De minimizar o papel das instituições, ignorar Constituição e achar que um capitão da reserva vai botar tudo em ordem?

Cientistas políticos avaliam que essa onda ultraconservadora já habitava a alma de significativa parcela de brasileiros, tão somente aguardava o momento e o agente propício para se manifestar.
Roberto Da Matta lembra do nosso eterno “jeitinho” e do apêndice jurídico. Conclui que nosso modelo em vigor permite “mudar não mudando e crescer sem distribuir”.

Ou seja, estamos na iminência de seguir com um modelo concentrador de renda e excludente por natureza. Se for assim, vamos desembocar em mais favela, narcotráfico, baile do Mandela, inanição cultural e violência retroalimentada. A culpa é de quem? Da rejeição ao PT/Lula, do pato da Fiesp, da memória vaga que glamouriza ditadura ou do STF sem norte? Parece ser um pouco de tudo isso junto e misturado a outros fatos.

De palpável mesmo é que estamos a caminho de uma eleição presidencial – esta sim, como nunca antes – entre dois extremos e onde o meio-termo se perdeu. A tendência é elegermos ao segundo turno os dois candidatos mais rejeitados. Seria a tal “marcha da insensatez” apontada por Fernando Henrique Cardoso? A sensação é de que iremos votar como quem caminha à beira de um vulcão que ruge.

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