“Quanta nova Gisele Bündchen já bateu perna por passarelas do mundo até descer do salto alto? Quanto sucessor direto do cronista Rubem Braga terminou com sua prosa esquecida no fundo da gaveta de algum livreiro?”
Tenho um amigo, publicitário gente boa, que costuma demolir egos com uma frase: “Você é o famoso…” e faz um pequeno intervalo, para arrematar “… famoso quem?”. A graça da frase está no ritmo. A paradinha após o “famoso”, sucedida pela interrogação, fere de morte qualquer ego. Naturalmente que na mudança de gênero, tão em moda, a coisa se ajeita. E, fundamentalmente, brinca com a vaidade das pessoas – o pessoal acima do coletivo – também tão em moda.
Você sabe que publicitário habita um mundo à parte, no entorno da fogueira das vaidades onde são forjadas tendências, algumas factíveis outras delirantes. Atualmente, muitos publicitários já perdem noites de sono imaginando como “venderiam” aquele algodão que os chineses fizeram brotar no lado oculto da Lua.
Lembro de outro publicitário, também gente boa, porém arrogante – não sei se por causa do cachimbo que fumava com pose de lorde inglês ou somente por causa do cachimbo pernóstico por natureza. Um dia, na caradura, garantiu-me que um dos seus filhos se superava a cada dia nas aulas de violão. “É um novo Baden Powel”, exagerou. E quanto ao outro filho, que tocava guitarra. ”É tão bom quanto Jimi Hendrix…” Deixei barato, apenas pontuei: com dois gênios em casa, por que ele ainda passava seus dias elaborando comerciais de eletrodomésticos para televisão? E fazendo pose de Spielberg almejando algum Oscar – no nosso caso, o Prêmio Colibri.
Descobrir tendências e talentos também é com publicitários. A língua dessa gente, já vimos, é afiada e exagerada. Volta é meia, se juntam a produtores, fotógrafos, modelos, roteiristas, coreógrafos, desenhistas etc., e partem na caça aos novos talentos, seja escritor, jogador, modelo, ator, cantor. Quantos sucessores de Zico já sugiram na Gávea e micaram pelo caminho? E os sucessores de Pelé de glória reduzida aos 15 segundos? Quanta nova Gisele Bündchen já bateu perna por passarelas do mundo até descer do salto alto? Quanto sucessor direto do cronista Rubem Braga terminou com sua prosa esquecida no fundo da gaveta de algum livreiro?
O que definirá alguém de sucesso amanhã ou depois é um conjunto de fatores, vários aleatórios, e que até podem ser codificados, mas não passa disso. Ultimamente, poucos superam aqueles programas de televisão para jovens cantores, com jurados histriônicos e suas cadeiras giratórias. E nada parece ser tão perda de tempo, não passa da busca de audiência e patrocinadores para girar a roda do showbusiness.
Posto que crianças crescem, mudam de voz, de gosto, de aparência e de comportamento – ultimamente até de sexo – tentar encontrar entre adolescentes um novo Emilio Santiago ou uma nova Elis não faz sentido. Até uma idade mais madura0 nem os caras que são artistas natos têm certeza do que desejam ser quando crescer. Wilson Simonal, grande cantor – estigmatizado depois pelas esquerdas – até os seus 18 anos mal abria a boca, vivia calado, introspectivo, baixa estima. Num desses “The Voice Kid” da vida, certamente, iria dançar.
Nesse jogo de espelhos, sempre achei implicância de petista atribuir ao agora ministro Sérgio Moro um ego maior do que a competência e coragem. Porém, vendo o tiroteio em que se transformou a liberação da posse de armas pelo presidente Bolsonaro, surgem dúvidas. Principalmente depois de notar que o Moro parece ainda estar caindo em si, percebendo que num governo ele é somente mais uma peça da engrenagem, em meio a uma hierarquia tocada por cabeças conflitantes. Por vezes, ele faz cara de quem se sente num fogo cruzado.
Agora ele já não tem o poder monocrático de decidir questões relevantes. Olhe o choque de ego pulsando aí também. Um amigo, pelo zap, pôs pilha: “Junte essas três palavras, “poder”, “ego” e “vaidade”, e você terá outra de quatro letras: Moro”. No mais, depois da posse das armas, pode vir a galope a liberação para o porte. Indo adiante nisso, retrocederemos ao velho oeste do faroeste. Resta saber até quando o xerife estará disposto a usar o distintivo e encarar aquele saloon onde os fracos não têm vez.