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Luiz Trevisan

Em trânsito

“É naquilo que muitos julgam retrocesso, os ramais ferroviários, a saída mais viável para desentupir nossas rodovias das carretas cada vez maiores e ...

Última atualização

“É naquilo que muitos julgam retrocesso, os ramais ferroviários, a saída mais viável para desentupir nossas rodovias das carretas cada vez maiores e nem sempre controladas. O lamentável episódio recente da morte de uma família cruzando a 101, na altura da Serra, é apenas mais um na elevada e sinistra estatística”

Em tempo de economia estagnada e plataformas digitais avançando rapidamente, sempre que vou a uma loja de discos ou livraria é como se estivesse voltando ao período jurássico. Você sabe que aquilo ali não vai durar muito. E não está fácil para ninguém essa transição veloz: livros, revistas e jornais impactados, leis de incentivo cultural padecendo de inanição, artistas reduzindo projetos, as tiragens diminuindo. Para ter ideia, novos discos de Adriana Calcanhoto e Lô Borges, dois artistas de renome nacional, estão chegando ao mercado com uma tiragem inicial de um mil CDs cada.

O avanço do mundo digital nem sempre é percebido de imediato. Lembra daquele painel do “Impostômetro”, instalado na fachada do prédio da Findes, em Vitória, atualizando em todo momento a nossa pesada carga tributária? Saiu do ar em nome da redução de despesa associada à opção de ser inserido no portal eletrônico da entidade, simples assim. E até o cigarro ganhou versão eletrônica. Nesse ritmo, avançamos para a cozinha digital na panela e no prato. Há quem diga que comida vegana é apenas o começo desse insosso processo.

Enfim, há gosto pra tudo. Até para relação com agressão física e moral, vide o caso Neymar, aquele jogador que também parece em fase de extinção. Agora, se existe um setor que deveria avançar em forma e tecnologia, porém anda em marcha a ré rumo à barbárie, é o rodoviário. Coincidentemente, é naquilo que muitos julgam retrocesso, os ramais ferroviários, a saída mais viável para desentupir nossas rodovias das carretas cada vez maiores e nem sempre controladas.

O lamentável episódio recente da morte de uma família cruzando a 101, na altura da Serra, é apenas mais um na elevada e sinistra estatística gerada pelo transporte de granito por nossas estradas. Pior: não há sinalização de declínio a curto e médio prazo. A Polícia Rodoviária Federal reclama de defasagem em seu contingente, mas o fato é que a fiscalização deixa muito a desejar.

Inclusive sobre o setor de rochas ornamentais, que é altamente predatório. Cadê os dispositivos eletrônicos inibidores? E se vingar a vontade do governo federal de afrouxar as punições aos infratores do trânsito, tudo pode ficar ainda pior. Já a duplicação das pistas, segue em marcha lenta.

A propósito, quem circula pela 101-Sul, na altura de Iconha, sabe bem a agilidade e segurança trazidas por uma pista duplicada no contorno da cidade. Ali foi reduzida em 40 minutos, pelo menos, a viagem de quem circula entre Vitória e Cachoeiro. E certamente propiciou aos moradores de Iconha a tranquilidade perdida diante da procissão de veículos em suas ruas, dia e noite. Agora dá até para contemplar com plácidos olhos nas pastagens ao redor “os bois brancos de Iconha”, conforme ilustrava um viajante constante por aquelas paragens, o cronista Rubem Braga.

No plano geral, só estaremos bem menos expostos quando colocarmos em trânsito o modal ferroviário para cargas e passageiros. Porém, por enquanto e, teme-se, ainda por muito tempo, isso tende a ser uma luz distante no longo túnel. O lobby do setor rodoviário é poderoso e costuma ser tão devastador quanto os hackers desnudando conversas de autoridades. No mais, já deu essa história de sempre culpar, algemar e exibir somente o mordomo, no caso, o motorista da carreta, este que é mais um metade vítima metade cúmplice neste ir e vir pela vida sobre rodas.

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