Imagens, você sabe, costumam falar mais do que mil palavras. Às vezes, idealizamos os mais diferentes enredos possíveis a partir de imagens icônicas. Seja do Papa abençoando fiéis da sacada do Vaticano ou o olhar do Che, com sua boina, perdido no horizonte das guerrilhas. Varia da dança de Cassius Clay no ringue ao trumpete na boca de Miles Davis. E o que dizer daquela imagem de Lana Turner descendo escada como somente as divas de Hollyood faziam? Hoje, as divas desfilam com vestidos esquisitos, carregadas de maquiagem diante dos cordões de paparazzi.
Na mais dramática imagem da guerra do Vietnã, feita em 1972, o fotógrafo Huynh Cong Nick Ut capta a menina KIim Phuc, então com nove anos, correndo nua de um ataque de napalm. A foto ganhou o Pulitzer, e tanto a menina quanto fotógrafo viraram reféns daquela imagem. À custa de várias cirurgias corretivas contra as queimaduras, Kim ressurgiu recentemente, aos 50 anos, para dar seu testemunho. Mora no Canadá, tem dois filhos, viveu em Cuba e revela seu incômodo com o governo vietnamita tentando transformá-la em garota-propaganda da guerra contra os Estados Unidos. Não virou militante de causa extrema, fez opção pelo pacifismo discreto.
Neste prisma de imagens, guerra e paz, chama atenção a foto da bela holandesa Freddie Oversteegen, quando jovem e militante da Segunda Guerra, estampada em seu obituário, dias atrás. Ela morreu em 5 de setembro último, aos 93 anos. Mas veja o que ela aprontou em vida, usando como arma sua imagem: atraía nazistas aos bares e depois os assassinava. Tinha arma sempre escondida na cesta da sua bicicleta. Além de pedalar e seduzir, ela atirava bem e gostava de explodir pontes. Era a perfeita tradução da mulher sedução, tiro, bomba e queda.
Mas talvez a mais famosa das fotos da Segunda Guerra Mundial passe ao largo de Churchil e seu charuto, Hitler vociferando, as chaminés das câmaras de gás dos campos de concentração nazista, de heroínas como Freddie ou de Stálin fazendo cara de bonzinho. Depois de tanto tanque, porrada e bomba, ao final da guerra o mundo preferiu consagrar a imagem de um beijo.
Arrebatador, o beijo foi captado em Times Square, Nova Iorque, em 14 de agosto de 1945. À procura de imagens que registrassem o alívio pelo fim do conflito, o fotógrafo Alfred Eisenstaedt flagrou um marinheiro atracado a uma enfermeira. Aquela foto em preto e branco, capa da revista Life, coloriu a imaginação de todo mundo.
Porém, foi quase um beijo-fake, pois o casal não existia de fato. Aliás, depois da fama que a foto conquistou, apareceram vários marinheiros e enfermeiras se arvorando a protagonistas daquela cena. Historiadores apontaram dois ”casais” finalistas, o marujo Glenn McDuffie e Edith Sahian, e Greta Zimmer Friedman e o marinheiro George Mendonsa. Como havia outras pessoas se beijando naquele momento de euforia, virou uma foto-lenda sem legenda precisa, quase uma foto-fake.
Hoje, militantes feministas apressadas classificariam aquele beijo de “assédio sexual” se atentassem para outras fotos daquela sequência, onde a enfermeira tenta inicialmente se desvencilhar do marinheiro beijador. Depois, ela parece ter relaxado e… entrou para a História mesmo tendo a face oculta.
Antes de falecer, em 2016, Greta classificou aquele beijo não como assédio, mas resultado de um “evento feliz”. Ao longo da vida e com cada um em seu casamento, Greta e Mendonsa somente se reaproximaram por força da foto de um beijo que nunca mais se repetiu. Ainda assim, virou livro, pôster, documentário etc. após povoar a imaginação de um mundo que se sentia livre e feliz. Enfim, na fotografia de qualquer época em tempo de paz quase sempre estamos felizes. Ou fazendo de conta, que é o que conta na foto que fala. Ainda que não revele tudo.

