
O mais famoso ponta-direita – na época em que existia ponta no futebol – brasileiro, Mané Garrincha, também ficou conhecido pelas extravagâncias etílicas e amorosas fora dos gramados. O famoso “latin-lover”, que encantou as suecas quando o Brasil levantou seu primeiro título mundial, em 1958, e que viu seu nome correr mundo com força, principalmente após ter decisiva participação no bicampeonato mundial da seleção, conquistado quatro anos depois, no Chile. Sem Pelé, machucado no início da competição, coube a Garrincha fazer chover nos gramados chilenos. Até hoje, turistas que visitam Valparaíso, sede de jogos dos brasileiros, costumam ser brindados por guias turísticos locais rememorando alguns feitos do “gênio das pernas tortas”.
Ainda surfando nos louros da conquista no Chile, em 1963, Garrincha aparece em Guarapari, ao lado da cantora Elza Soares, sendo atraído pela fama terapêutica das areias monazíticas, as mesmas que agora o ex-deputado Walter De Prá e outros abnegados buscam o reconhecimento científico do seu poder medicinal. De Prá viu o pai melhorar de problema reumático, após um período de tratamento com a areia preta de Guarapari. Outros tantos apareceram na mesma esperança. Garrincha entre eles. O jogador chegou a ter sua condição de atleta questionada por juntas médicas, devido à artrose de nascença.
Reza a lenda que o técnico sueco, antes da decisão com o Brasil, ironizou o poderio brasileiro apontando que a ”grande arma” da nossa seleção era “um aleijado”. Teve que engolir as palavras após aquele Brasil 5 a 2. E se o técnico sueco não gostava, as suecas adoravam. Garrincha teve por lá um filho, resultado de suas escapadas noturnas. Já no Chile, bem no Chile ele esteve acompanhado da cantora Elza Soares, e não se sabe se conseguiu driblá-la também, como tão bem fazia com os adversários pelos gramados.
Um ano antes do bicampeonato brasileiro no Chile, Garrincha estivera no Espírito Santo, mais exatamente em Cachoeiro, para um jogo amistoso do Botafogo contra o Estrela do Norte. Isso foi em junho, durante comemorações dos festejos da cidade, e a partida foi tão marcante para a memória esportiva da cidade que até hoje alguns comentaristas se referem àquela partida como “o jogo que não terminou”. O placar de 6 a2 a favor do Botafogo, um time cheio de craques, muitos deles da Seleção, foi o que menos importou.
O cachoeirense Fernando Gomes, editor da revista Cachoeiro Cult, compara a importância daquela vinda do Botafogo para jogar no Sumaré. “Cheio de jogadores da seleção brasileira, o Botafogo era, ao lado do Santos de Pelé, dois dos melhores times do planeta. Então, seria assim como se o Real Madri ou Barcelona viesse fazer uma partida em Cachoeiro”, arremata. O fato é que os cachoeirenses se divertiram muito com aquele jogo. Na expectativa da partida memorável, o então lateral esquerdo do Estrela, Gregório, folclorizava revelando como iria marcar e anular Garrincha: “No bafo”, respondia, e a piada estava no fato de que Gregório também adorava tomar umas e outras.
Natural, portanto, que mesmo adversários em campo, depois os dois terminassem se confraternizando num boteco copo-sujo, ao lado do campo do Estrela, na companhia de outra lenda esportiva brasileira, o meio de campo Didi. Famoso pela “folha seca” com que atormentava os goleiros, Didi inventou uma batida de efeito, que fazia a bola desenvolver uma trajetória errante, imprevisível, descaindo ao final como uma folha.
Pois o público que assistiu àquela partida foi devidamente brindado com uma bela demonstração. Em uma falta marcada distante da meia-lua, Didi se preparava para a cobrança, talvez nem arriscasse de tão longe, mas o goleiro do Estrela, Geraldo Latufe, exalando confiança, dispensou a barreira. Afrontado, Didi caprichou, e a bola errante passa por entre os braços do goleiro todo espichado. Quando o placar andava ali pelos 4 a 0, o Botafogo relaxou, tirou alguns dos seus medalhões – também estavam em campo Manga, Nilton Santos, Amarildo e Zagalo – e foi tocando em banho-maria.
Àquela altura, Garrincha já estava tão familiarizado com seu marcador que parece ter deixado de propósito Gregório lhe roubar algumas bolas, para alegria da torcida. Mas nada foi tão comparável ao fato do atacante estrelense Alcenir, que a crônica esportiva da cidade chamava de “o endiabrado do Sumaré”, ter marcado dois gols seguidos, o segundo driblando dois zagueiros e fulminando o goleiro Manga. A torcida veio abaixo, parecia que o Estrela conquistara um título importante. Porém, no final prevaleceu a maior categoria dos visitantes. E até hoje, para alguns, a partida ainda não terminou, tantas são as histórias a respeito.
Garrincha virou lenda e chegou a ofuscar estrelas da nossa canção. No final dos anos 1960, início da década de 70, diante da perseguição imposta pela censura do governo militar, o cantor-compositor Chico Buarque de Holanda foi morar na Itália. Aqui ele já era bem conhecido. Lá, nem tanto. Morando em Roma, costumava comprar cigarros num bar próximo, entrava e saia anonimamente. Até que um dia ele e a mulher Marieta Severo recebem a vista do casal Elza Soares e Garrincha. Logo, Garrincha convida o compositor para ”tomar uma”.
Seguiram para o bar próximo, o mesmo dos cigarros. A diferença foi que quando os dois entraram, o bar parou. “Olha o Garrincha, aí”, gritou alguém. Uma festa, todo mundo paparicando o jogador, ninguém deixou ele pagar a conta. Dias depois, já sem Garrincha, que voltara ao Brasil, Chico Buarque volta ao bar em busca de cigarros. Quando entra, diferente das vezes anteriores, é logo saudado pela galera: “Olha aí, é o amigo do Garrincha”.