Esqueça aquele código de honra existente entre os chamados bons gatunos, tipo roubar só de quem tem muito, ou a do perdão para o ladrão que rouba ladrão. Pode ser um banco, um carro-forte, alguém de muitas posses obtidas por meios escusos. Esse papel do “bom ladrão” só funciona em cinema, em alguma ação guerrilheira, num romance policial. Igualmente ignore o Robin Hood, que tira dos mais ricos para dividir com os pobres, um paladino da justiça social em ação, pois isso é coisa de folhetim. Aqui no terra-a-terra a coisa é bem rasteira.
Entre repórteres policiais, acostumados às barbaridades do cotidiano, é comum sugerir surrar bandido ordinário com um gato morto. E a surra só termina quando “o gato miar”. Isso vale principalmente para aqueles ladrões que assaltam indefesos trabalhadores nos ônibus, donas de casa, crianças e idosos. É ladrão sem nenhum escrúpulo, meliante muito próximo daqueles que bradam, sem pudor: “Vergonha é roubar e não carregar”. Essa turma é mesmo de envergonhar qualquer felino vira-lata.
Mas sempre se pode decair como anjos tortos: numa madrugada, dias atrás, roubaram pacientes num hospital do Ibes, em Vila Velha. Acompanhantes entraram no pacote perdendo celular, dinheiro, laptop. Prática que se espraia sinistramente: velórios noturnos estão desaconselhados em cemitérios por causa da insegurança. Túmulos são profanados em busca de algum valor, parece coisa de outro mundo.
E sempre pode piorar: roubaram o braço da estátua do Noel Rosa, em Vila Isabel, numa ação de craqueiros ruins da cabeça e doentes do pé, que desconhecem o grande sambista e compositor popular. Ainda pior foi o comentário obscurantista de leitor postado no pé da matéria a respeito: “Poetas e escritores são profissões inúteis em tempo de internet. Garis têm mais serventia para a sociedade…” Por um prisma, sim: lixo sobra até na mente.
Daí, tiramos outra lição urgente: precisamos também cuidar das nossas estátuas, para que o violão do grande músico capixaba Mauricio de Oliveira, imortalizado na orla, não desapareça nas brumas de Camburi. Solução existe: monitoramento eletrônico. Mas pedir isso soa como luxo, pois nem chuveiros e banheiros básicos funcionam ali, mesmo sendo a principal praia de Vitória.
A Catedral Notre-Dame ardeu em chamas, logo a elite francesa sinalizou doações já próximas de R$ 3 bilhões para a restauração. Aqui, nossos ricos e mecenas de há muito silenciaram. Há sete meses o Museu Nacional virou cinzas, e as doações não somam R$ 200 mil. E alguns ainda se dão ao papel de generalizar e desqualificar as leis de incentivo cultural existentes, pois, segundo eles, ficam bancando “vagabundos, comunistas”. Além da memória, roubaram também o senso comum. Que fase!