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Luiz Trevisan

Houve um verão

“E já vai longe o tempo em que visitantes vinham apenas para conhecer o Convento da Penha e comprar chocolates Garoto. Estão descobrindo outras ...

Última atualização

“E já vai longe o tempo em que visitantes vinham apenas para conhecer o Convento da Penha e comprar chocolates Garoto. Estão descobrindo outras praias”

Passado o Carnaval, enfim o Brasil começa efetivamente o ano novo, reza a lenda. Pois virou lenda mesmo. Desde primeiro de janeiro temos um ano acelerado por um novo presidente meio atrapalhado e com seus filhos na mesma vibe, um calor desumano, acidentes e crimes de percurso, mas nem tudo foi tão ruim por aqui. Demorou, porém temos o Contorno de Iconha e um novo aeroporto, a rede hoteleira ampliou bem e o turismo bateu recordes de visitantes. E o Carnaval capixaba mostrou vitalidade, cadência – ah, quase não faltou água nos balneários –, e assim o Espírito Santo emerge na temporada como um novo cisne da lagoa na fonte do turismo de estação.

Agora que já vai terminando o verão, se compararmos com outros, será inevitável citar o famoso Festival de Verão de Guarapari, em fevereiro de 1971. O pretenso Woodstock brasileiro acabou projetando Tony Tornado sobre a platéia – ele se jogou e deixou sequelas em uma moça – quando a ideia dos promotores, Antonio Alaerte e Rubinho Gomes, era projetar as belezas naturais e talentos locais, como os cantores Aprígio Lyrio e Cristina Esteves. Foi um festival com muita ousadia e certa microfonia.

Pena que até hoje não se produziu um documentário cascudo sobre esse festival, pois falta – ou se desconhece até agora – o essencial: boas imagens dos shows e público. E as fotos disponíveis, acervo de O Globo, não são baratas. Imagina que hoje qualquer criança, celular em punho, gravaria com boa qualidade de som e imagem, horas e horas daquele evento que contou com nomes da MPB – Erasmo Carlos, Novos Baianos, Chacrinha etc. – e um público que perseguia todo aquele ideário alternativo em pleno pipocar dos anos de chumbo.

Outra citação aos antigos verões capixabas passa necessariamente pela lembrança do mineirinho que vinha para uma temporada à beira-mar e trazia até a vaquinha mimosa para economizar na padaria. Lembro de uma matéria dessa natureza, em A Tribuna, década de 70. Mostra a foto da família de veranistas em Guarapari, ao lado da vaquinha – uns trinta acomodados numa casa para dez pessoas. Seguia-se a conclusão inevitável: não temos turista, temos veranista mineiro e maioria pão-duro. Hoje, muitos já se hospedam em bons hotéis, pousadas e a vaquinha, se não foi para o brejo, fica por lá mesmo.

Então, com tantos turistas no verão estaríamos agora sendo descobertos dentro do País? Sim, mas nem tanto. A Rede Globo projeta cenário da próxima novela do horário nobre numa cidade do Espírito Santo. Só que o nosso estado que será projetado na telinha é mais um fake news. As gravações estão sendo feitas no… Rio Grande do Sul. Do lado de cá de nossas fronteiras, convenhamos, precisamos fazer algumas arrumações. De cara, impressiona como em matéria de mobilidade urbana ainda vivemos de costas para o mar. Agora estão anunciando balsas turísticas para breve, na Baía de Vitória, não sem tempo. Já o aquaviário com ônibus segue à deriva.

E já vai longe o tempo em que visitantes vinham apenas para conhecer o Convento da Penha e comprar chocolates Garoto. Estão descobrindo outras praias: o balneário de Manguinhos, na noite de domingo de Carnaval estava apinhado como poucas vezes. A Serra foi destino de 200 mil visitantes, segundo estatísticas. Guarapari bombou e foi sem apagão, sinalizando que já não é só o balneário conhecido pelas areias monazíticas. Aliás, impressionante é a persistência do ex-deputado e ex-prefeito de Nova Venécia, Walter De Prá, na cruzada para comprovar cientificamente as propriedades terapêuticas das areias pretas de lá.

Então, já não bate essa história de dizer que o ano começa somente após o Carnaval. A agenda dinâmica da rede social está aí para acabar com essa fatiagem do tempo fixada pela agenda midiática. Acabou esse negócio de fechar aos domingos, de apagar as luzes às 22 horas e só voltar ao ar quando amanhece. É moto-contínuo, toda hora é hora. A esteira da vida pode diminuir ou acelerar, mas não para nunca.

No mais, o “Houve um verão” do título foi também um gancho para evocar o compositor Michel Legrand, este sim uma grande baixa recente nos palcos da vida. Ele foi um dos motores sonoros na indústria da “fraude mais bonita do mundo, o cinema”, segundo Jean Luc Godard. É de Legrand um dos temas mais bonitos do cinema e que tornou inesquecível o “Houve uma vez um verão”, filme também conhecido como “Verão de 42”.

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