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Luiz Trevisan

O avesso da farofa

“Ninguém escuta música aos berros, predomina o respeito ao outro. Ninguém esbarra em ninguém. Um programa obrigatório é assistir a silenciosa ...

Vista geral da Praia do Morro, em Guarapari

Última atualização

“Ninguém escuta música aos berros, predomina o respeito ao outro. Ninguém esbarra em ninguém. Um programa obrigatório é assistir a silenciosa travessia de pedestres no cruzamento mais movimentado da cidade”

Quando você for a Setiba, num apinhado domingo de verão, compare o cenário farofa existente nas areias e ao redor com a imagem de civilização descrita a seguir. “Você raramente vai ouvir gente falando no celular, ninguém escuta música aos berros, predomina o respeito ao outro. Um programa obrigatório é assistir a travessia de pedestres no cruzamento mais movimentado da cidade. Os sinais vermelhos fecham várias ruas simultaneamente, permitindo que a multidão atravesse tranquila vinda de diversas direções. Ninguém esbarra em ninguém, o silêncio impressiona e o único barulho é a música suave dos outdoors de neon”.

Essa amostra de civilização evoluída descrita por Glaucia Sarmento, ao enumerar “10 razões para visitar o Japão”, também passeia pela famosa pontualidade dos trens, a limpeza das ruas, dos banheiros, a beleza dos jardins, a arquitetura inovadora e a comida. Neste último item, com um detalhe: nem tudo é peixe cru no prato. “Tóquio é a cidade com o maior número de restaurantes estrelados do planeta”, salienta. Ela aponta ainda o selo de qualidade que acompanha produtos japoneses, do carro à colher de arroz. E de um amigo que visitou o país, tempos atrás, registrei sua surpresa ao ser apresentado ao uísque japonês. “Você não acredita, mas aquilo é tão bom quanto um escocês de boa cepa”, assegurou.

Agora corta e volta ao cenário inicial de Setiba. Num trânsito caótico tipo Bangkok miniatura, dezenas de ônibus e inúmeras vans, clandestinas em grande parte, entopem o balneário de veranistas. Muitos deles trazem aparelhos portáteis de som a toda altura – tocando música de ferir os ouvidos –, falando aos berros pelo celular, jogando lixo em qualquer canto. Alguns trazem também cachorros, que volta e meia perseguem crianças entre os grupinhos de marmanjos que insistem em jogar bola no meio da multidão. Multidão, bola, cachorro, música ruim, sol forte… Dá para sentir o clima, e o melhor é se refugiar entre as algas e ondas.

Nos quiosques, não raramente, o peixe é frio, a cerveja quente e o preço salgado. Alguns liberam cadeiras de praia e barracas, mas não é barato, prepare-se para o assalto. E tem vendedor de tudo por todos os lados, aos berros: espetinho, queijinho, oi o milho, artesanato, etc. À medida que bebidas e outros aditivos sobem à cabeça, o nível de alguma civilidade cai drasticamente. Não raro, um casal abraçado rola na areia à milanesa, entre incentivos da turba.

Faz parte do pacote, mas a civilidade tão perseguida parece impossível num dia quente em faixa de areia disputada por multidão. Ainda que as construções irregulares, a poucos metros do mar, insistam em roubar o sol após determinado horário. Apesar e com tudo isso, ainda é o lazer “mais democrático” que temos. Embora o prefeito já tenha sinalizado que, no próximo verão, pretender cobrar dos visitantes “uma taxa de turismo”. É o tipo de ação que nem precisa da bola de cristal para incluir naquele pacote do “Vai dar m…”

Ainda assim, muitos não trocam um programa caótico desses por um passeio pelas assépticas ruas de Tóquio. Que saquê que nada, que o espetáculo das cerejeiras em flor não se compara ao azul da cor do mar. E sem falar dos terremotos… Enfim, assim como o gosto, também não se deve discutir preferência sobre clima, cenários e costumes. Você gosta ou não, ama e odeia em partes, ou simplesmente não toma conhecimento e segue em frente.

Pois não tem gente que sonha morar no gelado do Canadá? E também não existem aqueles que se contentam em fazer “passeio virtual” por meio de filmes, documentários e fotos? Esses nunca são expostos ao risco do trânsito, se livram do cansaço das viagens longas, dos aeroportos lotados, das intempéries climáticas bem como são poupados das malas e malas ao redor. Porém, na bagagem sentimental o turista virtual nunca terá a adrenalina e o impacto do inesperado que há no balanço das horas vividas fora da zona de conforto.

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