“João Gilberto era de outro tempo quando intérpretes não precisavam ser performáticos e nem causar na mídia e redes sociais. Ele vem de uma época em que a velocidade e exigência eram outras. Valorizavam-se as melodias e letras, os ouvidos atentos aos acordes delicados, aos arranjos, à entonação, ao jeito de dividir”
A perda do cantor-compositor João Gilberto, o mestre da batida perfeita no violão, encerra um ciclo de grandes inovadores da canção popular brasileira. Aos 88 anos, era o único remanescente do trio seminal da Bossa Nova, que incluía Tom Jobim e Vinícius de Morais. Também com ele se vai uma página de ouro do nosso cancioneiro. Como poucos, ele soube sintetizar o samba e a canção brasileira brejeira, não somente com sua prodigiosa memória, mas também no jeito peculiar de interpretar.
Recluso e avesso ao barulho das plateias, João Gilberto era de outro tempo quando intérpretes não precisavam ser performáticos e nem causar na mídia e redes sociais. Ele vem de uma época em que a velocidade e exigência eram outras. Valorizavam-se as melodias e letras, os ouvidos atentos aos acordes delicados, aos arranjos, à entonação, ao jeito de dividir. E no caso dele, sempre com “voz de flanela”, conforme definiu um dos seus biógrafos, o escritor Ruy Castro.
E nem o próprio Ruy Castro escapou das ”manias” do mestre. João ficou furioso e ameaçou processá-lo quando o escritor relatou no livro “Chega de Saudade” seu hábito de consumir cigarros “orgânicos”, e também abordou sua incurável misantropia. A propósito, um dia minha filha caçula Thaita, então com quatro anos, me surpreendeu dizendo que queria “conhecer o João”, de quem tanto ouvia falar e de escutar nos discos. Reagi de pronto: “Não tem outro João menos complicado?”. Anos depois, consegui levá-la a um raro show dele realizado no Teatro Municipal do Rio de Janeiro. Na plateia reverente, nomes como Caetano Veloso e Gilberto Gil, alguns dos seus muitos discípulos.
Sua importância na cultura musical brasileira pode ser ainda medida por uma espécie de enquete típica daqueles antigos cadernos de cultura dos jornais onde se perguntava: “Onde estava você, o que fazia e o que sentiu quando ouviu a canção Chega de Saudade (Tom e Vinícius) pela primeira vez?”. Como tantos, fiquei surpreso, era algo totalmente diferente e moderno. Até então, ouviam-se cantores com dó no peito, de vozeirão empostado e muito vibrato. Associado àquele jeito suave de cantar quase falando, e que mostrou ao mundo que os “desafinados também têm coração”, havia ainda em João Gilberto um violão de batida única.
Reza a lenda que ele inventou aquela batida no banheiro da casa irmã Dadainha, em Diamantina, terra de JK, onde foi parar uma época, depois de trocar a terra natal, Juazeiro, pelo Rio de Janeiro em busca de um lugar na música popular. Joãozinho, como era conhecido, passou oito meses naquela casa, a maior parte do tempo testando os timbres e tais do violão no banheiro de acústica privilegiada. Detalhe de percurso: Dadainha, a quem era muito ligado, faleceu recentemente em Vitória, onde morava há muitos anos.
Joãozinho então voltou ao Rio e começou a seduzir as pessoas com sua música e seu violão, a começar pelo compositor Tom Jobim, com quem gravou inicialmente e fez história a partir de 1958. Nos últimos anos, ainda mais recluso, virou quase um ermitão urbano no alto de um apartamento no Leblon, e se tornou alvo de uma disputa entre filhos, ex-mulheres e acompanhantes. A filha, a cantora Bebel Gilberto, chegou a interditá-lo judicialmente alegando saúde combalida, problemas de ordem financeira e com pendências relativas a direitos autorais das muitas gravações que realizou.
Tudo isso agora é história, que certamente vai render muitas páginas, comentários e documentários, como o recente “Onde anda você, João Gilberto?”, do francês Georges Gachot, a partir do livro do jornalista alemão Marc Fisher, lançado em 2011. Livro e documentário refazem passos do arredio cantor-compositor tendo com fio-condutor uma obsessão do escritor: Fisher veio ao Brasil unicamente para ver João Gilberto tocar, mas voltou sem lograr êxito. Então, feliz de quem pôde, em algum momento, ter este privilégio. Agora João Gilberto está na eternidade das canções e a saudade é toda nossa.