“Desconfio que a maioria que agora faz planos de sair do País acabará desistindo, por um motivo ou outro, principalmente o fator financeiro“.
Vez por outra aparecem pessoas conhecidas manifestando desejo de dar um ninja na realidade. E se mandar pra Portugal, Canadá, Chile ou qualquer lugar longe de um futuro que se avizinha com nuvens negras, qualquer que seja o resultado da polarizada eleição presidenciável. Alguns ainda se impressionam perante a facilidade com que as forças políticas do centrão foram diluídas num sopro, mesmo com Fernando Henrique Cardoso alertando para a “marcha da insensatez”.
Outros questionam o que deu errado. “Inacreditável é que depois de 40 anos da gente batendo na tecla de que ditadura não é bom, que o regime militar fez atrocidades, significa retrocesso, e após tanta exaltação à democracia, diversidade e inclusão social, chegamos a este ponto. Onde foi que erramos?”, indaga um amigo, via zap. Não tenho resposta, e resumir esse cenário à rejeição ao PT soa raso.
Mas desconfio que a maioria que agora faz planos de sair do País acabará desistindo, por um motivo ou outro, principalmente o fator financeiro. E para muitos o desejo vai virar mais um meme # Partiu… fake news. Alguns também acabarão ficando por já ir se acostumando – êpa, como diria o saudoso cronista Pedro Maia – com a idéia de Bolsonaro na presidência. “Muitos raciocinam assim: se ele não funcionar a contento, a gente troca em quatro anos. Já o PT, vamos levar mais de década”.
Tudo isso partindo do pressuposto de que o capitão da reserva vai mesmo baixar o tom, depois de empossado. E que seus comandados, controlados ou não, não seguirão impunes pichando campos universitários com suásticas nazistas, peitando o STF, extrapolando nas relações pessoais e sinalizando dias distópicos, assim como o cineasta Stanley Kubrick retratou em Laranja Mecânica.
A propósito, em meio ao atual festival de fake news, a exibição, nos cinemas, de “O primeiro homem” detalha a longa jornada que levou o astronauta americano Neil Armstrong a pisar na Lua. Isso em 1969, após muitas agruras, dúvidas, riscos mortais, perdas e superações dos astronautas.
Foi uma aventura levada a termo em pequenas e desconfortáveis cápsulas junto a um rabo de foguete. Pois até hoje tem muita gente que, contra as evidências, não acredita que o homem pisou na Lua e que não passa de mais um fake news histórico. Tipo assim, não houve ditadura no Brasil…
E quem não pode, não quer ou não vai conseguir deixar o País, terá de encarar uma realidade social que salta aos olhos na foto de Fábio Nunes, estampada na primeira página de A Tribuna, na edição do último dia 20. Na imagem, um gerente de supermercado, na Vila Rubim, em Vitória, tenta controlar cerca de três mil pessoas que se acotovelam em busca de senha para disputar 132 vagas.
Mesmo com carteira assinada, crachá e outros direitos, muitas das funções têm baixa especialização e remuneração, e estão fadadas ao extermínio em pouco tempo.
Em países europeus, funções como caixa de comércio, embalador, recepcionista etc. já foram ocupadas pela automação. E isso vale tanto para a birosca da esquina quanto o moderno aeroporto.
Aqui são funções ainda preservadas, muito graças aos sindicatos, para não aumentar mais o desemprego. O que também chama a atenção na foto é que entre os pretendentes às funções de pouco ou futuro nenhum aparecem professores e universitários. É uma dura lição de como anda nossa defasagem educacional. E um retrato alarmante do que não devemos ignorar nem postergar.
