“Eu lembro dos dias ruins na América do Sul, e das ditaduras, e foi feio”, disse Roger Waters, músico-fundador do Pink Floyd, sob aplausos e vaias”

Trazem arraigadas a cultura da resistência, da diversidade, da inclusão social e respeito aos recursos naturais, sentimentos que fazem muita falta, ainda mais agora com o acirramento político e o País dividido entre dois extremos e ânimos exaltados. E tendo ao meio uma massa de eleitores que não sabe bem para onde caminhar no segundo turno presidencial.
Já alguns recém-convertidos ao bolsonarismo preferem jogar fora os discos do Pink Floyd. Aquela canção do grupo que fala de outro tijolo na construção do muro adquiriu novo sentido e agora soa provocativa.
Por sua vez, partidos e lideranças associadas a movimentos sociais escalam o muro da neutralidade, alguns pregam voto branco ou nulo. O que também chama atenção é o ruidoso silêncio de certos artistas, ídolos, pensadores e agentes culturais. Foi preciso aparecer um músico inglês para dar pitaco e lembrar, textualmente: “Vocês têm uma eleição importante. Vão ter que decidir quem querem como próximo presidente. Sei que não é da minha conta, mas eu sou contra o ressurgimento do fascismo por todo o mundo. E como um defensor dos Direitos Humanos, isso inclui o direito de protestar pacificamente sob a lei. Eu preferiria não viver sob as regras de alguém que acredita que a ditadura militar é uma coisa boa. Eu lembro dos dias ruins na América do Sul, e das ditaduras, e foi feio”, disse Roger Waters, fundador do Pink Floyd.
Em seus shows pelo País, o músico ativista arranca aplausos e vaias. Está difícil saber qual de maior intensidade, pois o tom desses tempos é elevado e estridente. Esse cenário onde apologista da solução tiro, porrada e bomba se projeta como futuro presidente da República, arremete a outros questionamentos, além da constatação de que ele soube surfar na onda antipetista.
Qual o peso real de nossa cultura histórica, política e social dos últimos 30, 40 anos replicada em filmes, músicas, peças de teatro, livros, ensaios literários, seriados de TV, documentários?
Quanto caderno de cultura e debates na mídia celebrando o iluminismo das idéias, exaltando democracia, repudiando ditaduras, fascismo, nazismo e tudo aquilo que rima com obscurantismo?
Também impressiona como pessoas de bem, esperançosas de um País mais justo, se deixam levar por fake news que difundem barbaridades. E vale destacar aqueles que colocam a cara na reta, principalmente jornalistas influentes, apontando possíveis causas e cenários da era Bolsonaro.
Fernando Gabeira (esqueçam o clichê da sunga de crochê) aponta equívocos da tática adotada pelas esquerdas. “Além de não reconhecer seus erros, o PT atrelou o destino a um homem na cadeia (Lula) supondo repetir a história de Mandela. A esquerda saiu dividida”, frisa. Gabeira acredita que a democracia não está ameaçada, mas a qualidade dela, sim.
Já Cora Rónai observa que independente de quem for eleito, é necessário a sociedade se manter “dentro dos limites do aceitável, da civilização. Das pessoas sensatas de todos os lados – sim, há pessoas sensatas em todos os lados – depende a viabilidade do nosso cotidiano”, diz.
Da minha parte, descobri também uma extrema-direita ruidosa, antes era envergonhada, parte dela comungando com o capitão da reserva de valores machistas, homofóbicos e racistas, relativizando assim aquela teoria do brasileiro bonzinho, pacífico, acolhedor. Na verdade, poucos sabiam que havia uma direita no Brasil.
Após a ditadura militar, tivemos uma série de governos moderados, conservadores, neoliberais, alguns com viés de esquerda. Agora, tudo caminha para termos um presidente disruptivo.
Então, que as instituições não fraquejem, a imprensa não esmoreça, e que Deus seja mesmo brasileiro. De resto, já elegemos presidente Zé Ruela, de Jânio a Collor, passando por Sarney, e ainda assim, sobrevivemos.