“Albuino Azeredo foi um dos mais populares e democráticos governadores, convivia bem com as críticas e críticos e sem retaliações, ouvia atentamente interlocutores, um comportamento quase atípico na selva dos poderes”
Campanhas eleitorais também se assemelham às nuvens, pois parecem iguais, mas mudam constantemente. Albuino Azeredo foi eleito governador (1991-1994) num tempo em que as campanhas eram regidas por um marqueteiro-mor que, na versão feminina, levava o nome de “bruxa”, um pouco por maldade masculina, um pouco para caracterizar o mercado capixaba então liderado por duas profissionais especialistas, Jane Mary e Bete Rodrigues, que continuam em ação.
Mudaram as campanhas – candidatos nem tanto –, o popular caixa dois virou alvo da Lava Jato, vários marqueteiros famosos saíram respingados e enrolados na Justiça, a forma de financiamento agora é do fundo partidário ou doações. Enfim, o dinheiro encurtou para todos, alguns candidatos optaram por montar equipes sem um medalhão, pago a peso de ouro, à frente. É a tal produção coletiva, que às vezes funciona, às vezes não, a eterna tentativa de erro e acerto.
Quando Albuino Azeredo se lançou candidato ao governo, após um período como secretário de Planejamento do governo Max Mauro, trazia na bagagem o conceito de um engenheiro empreendedor, especializado em transporte. No início daquela campanha, tinha pouco mais de 4% das intenções de votos, contra cerca de 50% das intenções em favor do senador José Ignácio Ferreira que, por sinal, anda escrevendo seu livro de memórias.
Numa virada histórica, onde o depoimento emocionado da mãe de Albuíno, Dona Normília, virou divisor de águas, ele foi eleito. Ah, também havia um jingle chiclete “Albuiiiino, este é o homem”, que ajudou a criar um clima favorável. E nada de indumentária pomposa, de hábitos simples, apreciava um aperitivo na hora da descontração, um sujeito do povo, enfim.
Às vésperas da sua posse no governo, a marqueteira Bete Rodrigues reuniu sua equipe em confraternização num restaurante diante do mar de Manguinhos. Havia motivos para comemorar não somente a campanha ascendente do seu candidato, mas o fato de eleger o primeiro negro como governador do Espírito Santo. Não era pouco, era História viva sendo escrita na pulsação dos dias.
Além da dedicação aos programas de transporte, Albuino Azeredo bancou um inovador plano de atendimento médico-odontológico às comunidades por meio de unidades móveis, que foi batizado de Transcol da Saúde. Recebeu Mandela, o Príncipe Charles, promovia animadas partidas de futebol no campo da residência oficial, sempre com seu sorriso largo e cativante. Mas o grande diferencial estava no próprio Albuino: foi um dos mais populares e democráticos governadores, convivia bem com as críticas e críticos e sem retaliações, ouvia atentamente interlocutores, um comportamento quase atípico na selva dos poderes.
Quatro anos mais tarde ele tentou voltar ao governo, mas vejam as voltas do mundo: enfrentou o mesmo José Ignácio que, escaldado, tratou logo de contratar
Bete Rodrigues para fazer sua campanha. O cenário era outro e a correlação das alianças partidárias era desfavorável a ele. José Ignácio acabou eleito, Albuino foi tocar sua vida de engenheiro. Nos últimos anos, o homem especialista em trânsito ficou limitado fisicamente, porém sempre mostrando uma vontade enorme de superação.
Lembro dele, brilho nos olhos, falando da ligação ferroviária entre Rio e São Paulo, onde atuava como consultor, o famoso projeto do trem-bala que descarrilou quando Dilma foi afastada da presidência. Mais um exemplo de como o Brasil trata mal o transporte ferroviário.
Albuino foi engenheiro do seu tempo, com um modo peculiar de enxergar o mundo e apontar caminhos. Vale o depoimento de uma antiga assessora do seu governo, ressaltando que ele nunca pediu para priorizar nada nem ninguém que não estivesse em conformidade com o que havia sido discutido, planejado e autorizado. Clientelismo político não era sua prática, ele exigia resultados. Talvez isso explique sua trajetória política relativamente curta. Albuino sai de cena, entra na História e na memória afetiva num momento em que o País, às vésperas de uma eleição crucial, parece seguir sem rumo, e carente de gente como ele para ajudar a construir um bom caminho.