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Luiz Trevisan

Vagas memórias

Nada é para sempre, somente a dúvida existencial é eterna e até os anéis de Saturno irão desaparecer em 100 milhões de anos, dizem os cientistas. ...

Última atualização

 (Foto: Wikipedia/NASA/JPL/Space Science Institute))Nada é para sempre, somente a dúvida existencial é eterna e até os anéis de Saturno irão desaparecer em 100 milhões de anos, dizem os cientistas. Quanto a Terra, já estamos acostumados à previsão de que um dia também será engolida pelo Sol daqui a uns quatro bilhões de anos. Isso se resistir até lá aos Trumps da vida. Sobre o nosso cantinho neste planeta paira uma ameaça imaterial, que é a memória negligenciada ou apagada. Dizem que a cada ano o brasileiro desconstrói aquilo que foi feito no ano anterior. Embora, ultimamente, o inconstante e volúvel STF desafie essa cronologia.

Também sabemos que existe um relógio biológico marcando o bom funcionamento da nossa memória. Até os 23 anos, beleza: você fixa praticamente tudo e com bastante nitidez, seja livro, música, filme, álgebra, análise sintática, imagens, sentimentos diversos. Depois dessa faixa etária, o HD personal começa a ficar carregado, vez por outra passa por um reset automático, e a gente vai “salvando”, levando e acumulando outros conhecimentos e experiências. E deletando muita coisa.

Com o avançar dos anos, a memória vai se tornando mais seletiva, e costuma apagar aqueles maus instantes, fracassos e micos inevitáveis. Prevalecem os momentos marcantes: o primeiro beijo, a primeira vez de ver o mar, a conquista do canudo na escola, a festa de formatura, namoros relevantes, amizades, casamentos, filhos etc. E, naturalmente, há toda uma trilha sonora de cada um, os filmes favoritos, os romances e as viagens inesquecíveis. Embora existam pessoas que dispensam muitas dessas coisas, pois integram um estranho grupo que considera a arte apenas uma moldura da vida, sendo dispensável ou secundária.

Uma das melhores ilustrações de como funciona nossa memória ouvi do cartunista, poeta e teatrólogo Milson Henriques, um campista que fez história na vida cultural de Vitória, ao longo dos últimos 50 anos. Milson comparava nossa memória ao ato de observar de uma paisagem pela janela de um veículo em movimento. Tudo aquilo que se encontra mais distante (montanhas, nuvens no céu, prédios etc.) você vê com bastante nitidez. E o que se encontra mais próximo, e quanto mais próximo estiver, mais rapidamente passa por nós, não conseguimos fixar.

O fato é que nem sempre cuidamos adequadamente da nossa memória, principalmente da coletiva. Há tempos acalento um projeto que é criar regionalmente o Museu da Pessoa, para perenizar imagens, vozes e pensamentos de personalidades capixabas, sejam políticos, artistas, esportistas, pensadores. Mais recentemente, o radialista e pesquisador musical Tarcisio Faustini estimula a criação estadual de um Museu da Imagem e do Som. Penso que as duas coisas se complementam.

Mas, igual a ele, ando descrente de que isso, de uma forma ou outra, possa ir adiante. A última tentativa feita num terreno próximo, o Cais das Artes, na Enseada do Suá, tornou-se um elefante branco do patrimônio público. E você bem sabe que o difícil mesmo é remover qualquer elefante, vivo ou morto.

Até mesmo a nossa memória-fantasia, tipo Papai Noel chegando, anda sendo maltratada. Neste Natal, entrou no ar uma propaganda que desmitifica a figura do Papai Noel. Mas crianças de tenra idade não precisam saber disso assim, abruptamente, terão muito tempo para isso. Um dia vão compreender que, embrulhado na jogada mercadológica, há todo um sonho de fraternidade nem sempre presente em nosso cotidiano áspero.

De todo modo, Feliz Natal! De preferência, dê livros de presente. Além de ilustrar mentes e estimular a memória, andamos precisando muito dos livros. Sem contar que é uma força providencial nesta fase em que livrarias estão fechando as portas para, muitas vezes, numa troca doente, dar lugar às farmácias pelas esquinas da vida.

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